Sob as flores e entre as lâminas de relva, milhares de insectos e aranhas vivem, alimentam-se, reproduzem-se e contribuem para manter os ecossistemas em equilíbrio.
Muitos asseguram a polinização das plantas. Outros decompõem matéria orgânica ou tornam-se alimento para aves e pequenos mamíferos. Ainda assim, a maioria das pessoas nunca percebe o que acontece quando um prado é cortado.
Uma nova ferramenta online vem alterar esse cenário ao transformar investigação científica numa informação acessível a qualquer pessoa.
Em vez de depender de palpites, a ferramenta calcula quantos insectos e aranhas podem estar a viver num prado e mostra de que forma diferentes métodos de corte podem afectar esses animais.
A intenção é dupla: apoiar decisões mais informadas na gestão de espaços verdes e dar ao público uma visão mais clara da vida selvagem que, regra geral, passa despercebida.
Da investigação ao uso quotidiano
A Calculadora de Insectos, disponível na web, estima o número e a diversidade de insectos e aranhas presentes em prados e outras áreas de herbáceas.
Além disso, permite confrontar práticas distintas de corte e observar de imediato como essas opções podem alterar a biodiversidade local.
O trabalho científico levou à criação de uma fórmula que combina doze factores diferentes para estimar quantos insectos existem em cada metro quadrado de prado.
Essa fórmula baseia-se em dados de campo padronizados recolhidos em várias regiões da Alemanha e da Suíça - e são esses mesmos dados que alimentam a calculadora online.
A ferramenta foi desenvolvida no âmbito do projecto BioDivKultur, uma iniciativa interdisciplinar que reuniu investigadores da TU Darmstadt e parceiros com trabalho no terreno.
O que os números revelam
Os resultados deixam claro até que ponto o corte altera a vida num prado. Os investigadores observaram que um único corte pode reduzir o número de insectos e aranhas em até 73%.
A tendência repete-se em vários grupos, incluindo cigarras, percevejos e gafanhotos, embora a dimensão do impacto não seja igual para todos.
Foi também identificado que os prados em zonas rurais menos isoladas, em geral, sustentam densidades mais elevadas de insectos e aranhas do que espaços verdes rodeados por áreas urbanas intensamente edificadas.
O tipo de equipamento usado também conta. Os trituradores (mulchers) foram associados a quebras mais acentuadas nas populações de insectos do que as barras de corte.
O estudo mostrou ainda que a frequência de corte, a altura de corte e outras opções de gestão influenciam, em conjunto, o número de insectos que vivem num prado.
A relva não cortada faz diferença
Entre as práticas avaliadas, há uma que se destaca: deixar partes do prado sem intervenção.
“Uma conclusão central é que, embora alterações às práticas de corte possam ter efeito - como usar máquinas menos nocivas para os insectos ou reduzir a frequência de corte -, o próprio acto de cortar é o que tem maior impacto”, afirmou a autora principal do estudo, Johanna Berger, da Universidade Técnica de Darmstadt.
“Isto sublinha a importância de áreas deixadas por cortar - os chamados refúgios. São uma medida eficaz para proteger insectos e aranhas, porque preservam recursos e oferecem locais onde se podem abrigar durante ou após o corte.”
Criar um refúgio para insectos
Uma forma de criar estes refúgios é recorrer ao corte rotativo. Em vez de cortar todo o prado de uma só vez, corta-se apenas uma parte e mantém-se outra secção em pé para ser cortada mais tarde.
Desta forma, insectos e aranhas ficam com um local onde sobreviver enquanto o resto do habitat recupera.
A calculadora inclui um exemplo com base num prado com cerca de 1 076 pés quadrados (aprox. 100 m²). Depois de cortar toda a área, permanecem cerca de 13 000 insectos e aranhas.
Deixar 10% do prado por cortar eleva esse número para 14 350. Com 20% sem corte, sobe para 15 700, e com 30% atinge 17 050.
Um prado que não é cortado de todo alberga cerca de 26 500 insectos e aranhas.
Uma ferramenta para todos
A Calculadora de Insectos inclui um Modo Passeio pensado para o público em geral e um Modo Especialista dirigido a pessoas envolvidas na gestão de prados e áreas de herbáceas.
“Para a Calculadora de Insectos, reunimos um conjunto de dados abrangente a partir de amostras padronizadas, de um metro quadrado, de insectos e aranhas recolhidas na Alemanha e na Suíça”, explicou Nico Blüthgen, porta-voz do projecto BioDivKultur.
“Com esta base, é possível demonstrar de forma clara como vários parâmetros do corte e a área impermeabilizada em redor dos espaços verdes influenciam o número e a diversidade de insectos e aranhas.”
Enfrentar a crise da biodiversidade
A coautora do estudo, Margarita Hartlieb, referiu que a ferramenta também disponibiliza informação adicional, como ligações para observações do projecto de ciência cidadã iNaturalist.
“A nossa compreensão da crise da biodiversidade está a crescer, mas continua a haver falta de medidas e acção eficazes”, afirmou Berger.
“Para nós, na comunidade científica, uma solução fundamental é ligar os nossos resultados a aplicações práticas e comunicá-los melhor, por exemplo através de ferramentas digitais e orientadas por dados como a nossa Calculadora de Insectos.”
O estudo completo foi publicado na revista Soluções e Evidências Ecológicas.
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