Durante anos, considerou-se que a imaginação era uma marca exclusivamente humana, ligada à narrativa, à brincadeira e a mundos de faz de conta - algo que nos afastaria dos outros grandes símios. Na ciência, era frequente traçar-se uma fronteira rígida entre o pensamento humano e o comportamento animal.
Trabalhos recentes estão a atenuar - se não mesmo a apagar - essa fronteira, ao apontarem para a imaginação a funcionar também na mente de símios, recorrendo apenas a copos vazios, “sumo” imaginário e interacção lúdica.
O estudo investigou a brincadeira de faz de conta através de experiências rigorosas com um único símio, Kanzi. A equipa da Johns Hopkins University criou tarefas inspiradas nas “festas do chá” das crianças.
No conjunto, os resultados indicam que a imaginação poderá ter raízes evolutivas muito mais antigas do que se supunha.
Imaginação em símios e humanos
À primeira vista, o faz de conta parece coisa de crianças: chávenas vazias, sumo fingido, uma uva invisível. Parece leve e até disparatado. Contudo, por detrás desse cenário simples existe uma exigência mental difícil: manter a noção de algo que não está realmente presente e, ao mesmo tempo, saber que isso não é real.
A imaginação assenta numa competência chamada representação secundária. O cérebro consegue sustentar duas ideias em simultâneo sem as confundir.
Uma dessas ideias corresponde ao mundo real - por exemplo, copos vazios sobre uma mesa. A outra só existe no plano imaginado - por exemplo, “sumo” dentro de um desses copos. Para evitar enganos, a mente mantém estas duas representações separadas.
Nas crianças, esta capacidade aparece cedo. Jogos de faz de conta com chá ou comida revelam uma compreensão clara do que pertence à realidade e do que pertence à imaginação.
Os investigadores associam a representação secundária ao planeamento, à compreensão dos outros e ao raciocínio sobre possibilidades. Durante muito tempo, discutiu-se se os animais seriam capazes deste tipo de pensamento.
Porque é que os cientistas escolheram Kanzi
Para testar a hipótese de forma controlada, uma equipa que trabalha com Kanzi - um bonobo macho de 43 anos, no Ape Initiative, no Iowa - decidiu avaliar a questão com métodos experimentais.
Kanzi já era amplamente conhecido por anos de interacção com pessoas e por conseguir responder a perguntas faladas através de apontar.
Além disso, teve uma exposição extensa à comunicação humana e aprendeu a usar lexigramas (símbolos visuais) para compreender linguagem falada. Essa experiência tornou possível uma comunicação clara ao longo das experiências.
Embora já existissem relatos informais de comportamentos de faz de conta, histórias casuais são difíceis de validar. Por isso, os investigadores construíram tarefas com uma pergunta mais directa: conseguiria Kanzi acompanhar um objecto imaginário ao longo de uma cena de faz de conta?
Um ponto central do desenho experimental foi afastar explicações simples, como hábito ou procura de recompensa. Como não foram atribuídas recompensas alimentares após respostas correctas, as escolhas deveriam reflectir a compreensão de Kanzi e não um treino.
Experiências de “festa do chá”
Os investigadores montaram jogos de faz de conta muito simples com objectos do quotidiano, como copos vazios, frascos e jarros.
Um experimentador agia como se estivesse a verter sumo ou a colocar uvas, apesar de não existir nada de facto. Depois de cada acção, surgiam perguntas directas - por exemplo, onde estaria o sumo ou a uva.
Num dos jogos, o “sumo” imaginário entrava em dois copos e, a seguir, saía de um deles. Kanzi, na maioria das vezes, apontava para o copo que ainda “tinha” sumo fingido. Mesmo quando os copos trocavam de posição, a resposta mantinha-se correcta, o que sugere um acompanhamento cuidadoso do que acontecia na brincadeira.
Outro jogo avaliou a distinção entre itens reais e imaginados. Um copo continha sumo verdadeiro, enquanto outro recebia apenas o gesto de verter “sumo” de faz de conta.
Quando lhe pediam para escolher, Kanzi quase sempre apontava para o sumo real, evidenciando que reconhecia a diferença.
Num último jogo, as uvas substituíram o sumo. Um experimentador fingia colocar uma uva num frasco e retirar uma uva de outro. Mais uma vez, Kanzi apontou para o frasco com a uva imaginária com uma frequência superior à esperada por mero acaso.
Afastar explicações simples
A equipa tratou de analisar explicações alternativas. A hipótese de comportamento aprendido não explicava o desempenho, porque as tentativas de teste não ofereciam qualquer recompensa.
A imitação também não servia como explicação, já que os gestos do experimentador não eram iguais às respostas de apontar. Do mesmo modo, pistas visuais não justificavam o resultado, uma vez que os recipientes permaneciam transparentes e vazios.
Também não pareceu haver confusão entre o que era fingido e o que era real. Quando existia sumo verdadeiro, Kanzi preferia-o de forma consistente, o que indica que distinguia itens imaginados de itens concretos.
Por fim, após escolhas sem recompensa, não surgiram sinais de frustração, o que é compatível com compreensão do cenário, e não com uma crença errada.
Os símios também conseguem usar a imaginação
Em conjunto, os dados sugerem que um bonobo é capaz de formar representações secundárias durante uma brincadeira de faz de conta partilhada. Essa capacidade apoia a ideia de imaginação para além do aqui e agora.
“É extremamente impressionante e muito entusiasmante que os dados pareçam sugerir que os símios, na sua mente, conseguem conceber coisas que não estão lá”, observou a autora principal do estudo, Amalia P. M. Bastos.
“A imaginação tem sido vista há muito como um elemento crítico do que significa ser humano, mas a ideia de que pode não ser exclusiva da nossa espécie é realmente transformadora”, acrescentou o co-autor Christopher Krupenye.
Raízes evolutivas da imaginação
As evidências apontam para que a representação secundária provavelmente já existisse num antepassado comum partilhado por humanos e símios há cerca de seis a nove milhões de anos. Esta conclusão põe em causa pressupostos antigos sobre a singularidade humana.
A enculturação poderá ter influência. O treino linguístico pode ajudar a tornar visíveis competências mentais que já lá estavam. O uso de símbolos também pode reforçar a capacidade de gerir estados imaginados.
Os investigadores salientaram, no entanto, que serão necessários mais estudos com símios sem uma exposição humana tão extensa.
A imaginação molda a empatia, o planeamento e o cuidado com os outros. Reconhecer vidas mentais ricas nos símios reforça a responsabilidade ética.
“Devemos sentir-nos compelidos por estas descobertas a cuidar destas criaturas com mentes ricas e belas e garantir que continuem a existir”, afirmou Krupenye.
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