Perante a chegada de espécies de mexilhões invasores à Califórnia, o U.S. Bureau of Reclamation lançou um concurso com o objetivo de travar a sua disseminação. Estes moluscos, ao incrustarem e entupirem infraestruturas hidráulicas, representam todos os anos um custo gigantesco para os Estados Unidos.
A palavra “astronómico” não é exagerada: os prejuízos causados por estes mexilhões invasores são estimados em 1 mil milhões de dólares por ano a nível nacional, um valor comparável aos orçamentos atribuídos a determinados programas médicos. Estão em causa três espécies: os mexilhões-zebra (Dreissena polymorpha) e os mexilhões-quagga (Dreissena rostriformis bugensis, ou Dreissena bugensis), presentes há várias décadas nas águas interiores norte-americanas, e os mexilhões-dourados (Limnoperna fortunei), detetados pela primeira vez na Califórnia em outubro de 2024.
Além de não serem realmente bons para consumo (concentram diversos metais pesados e agentes patogénicos), fixam-se em colónias sobre qualquer superfície dura - condutas e bombas hidráulicas, equipamentos do setor energético - e multiplicam-se até tornarem estes sistemas difíceis de operar.
Para responder a esta ameaça, o U.S. Bureau of Reclamation lançou um desafio em três fases chamado “Halt the Hitchhiker”. A meta é encontrar uma forma de as neutralizar nos depósitos de lastro das embarcações, o principal meio de propagação. Para atrair particulares, equipas universitárias, startups ou investigadores independentes dos EUA, a agência federal colocou prémios em cima da mesa: o valor mínimo será de 20 000 dólares, mas pode chegar a um máximo de 200 000 dólares.
Mexilhões pequenos, mas prejuízos colossais
Como já foi referido, estes mexilhões espalham-se através dos compartimentos de lastro das embarcações de recreio. Trata-se de depósitos integrados nos barcos, que os utilizadores enchem e esvaziam para ajustar a estabilidade e a atitude da embarcação enquanto navegam.
Mesmo depois de drenados, estes reservatórios continuam a reter uma pequena quantidade de água - e é precisamente aí que os mexilhões, ainda na fase larvar, permanecem. São microscópicos; por isso, é impossível identificá-los a olho nu. Basta que um utilizador descarregue o lastro num lago, regresse a casa e, no fim de semana seguinte, volte a colocar a embarcação noutro plano de água para que se inicie a colonização de um novo ecossistema.
Depois de entrarem num novo ambiente, aderem a qualquer superfície disponível e formam colónias muito densas capazes de perturbar o funcionamento de instalações hidráulicas. O impacto pode ser suficiente para reduzir os caudais nas condutas que fornecem água doce a cidades e a vastas áreas de rega, deixando os agricultores sem a água necessária para as colheitas. Complexos industriais e barragens hidroelétricas também são afetados: uma vez estabelecidas, as colónias podem bloquear sistemas essenciais ao seu funcionamento.
À caça dos mexilhões!
Para o U.S. Bureau of Reclamation, este combate tornou-se prioritário há pouco menos de 20 anos. Ainda assim, apesar dos milhões de dólares já investidos e da implementação de protocolos rigorosos de limpeza de embarcações, ainda não surgiu nenhuma solução milagrosa.
Daí a agência ter optado por uma mudança de abordagem com o concurso “Halt the Hitchhiker”, na esperança de quebrar o ciclo de contaminação entre lagos e automatizar a descontaminação dos depósitos de lastro, sem intervenção humana.
A gestão do concurso foi atribuída à empresa yet2, uma consultora global de inovação aberta, que o conduzirá em três etapas. Primeiro, os participantes terão de submeter notas onde descrevem a sua abordagem para neutralizar as larvas dos mexilhões; nesta fase serão selecionadas seis equipas, e cada uma poderá receber até 25 000 dólares.
Em seguida, as três melhores apresentarão a sua solução oralmente perante um júri, com 50 000 dólares em jogo para cada equipa escolhida. A fase final é a mais exigente: as equipas restantes terão de construir um protótipo e testá-lo em laboratório para demonstrar que funciona. A primeira classificada receberá 125 000 dólares, a segunda 75 000 e a terceira 50 000. Só a equipa que ficar em primeiro lugar nesta última etapa, tendo vencido também as duas anteriores, porá as mãos no jackpot: 200 000 dólares acumulados.
A análise da Presse-citron
Embora possa parecer pouco comum uma agência governamental norte-americana recorrer a concursos, esta tem-se tornado uma estratégia cada vez mais usada nas políticas públicas, conhecida como “Prize Challenge”. Em regra, o Governo prefere concursos públicos e contratos: acorda com prestadores a entrega de resultados específicos, com financiamento associado à execução do trabalho, e não à garantia de um resultado final. No formato de concurso, a lógica inverte-se: a agência só recompensa o vencedor se este apresentar uma prova de conceito que funcione de facto. Duas abordagens que se complementam.
É também uma forma de admitir que a experiência interna pode beneficiar de perspetivas novas. Assim, apostam que um outsider possa trazer uma ideia que os seus próprios colaboradores - focados no tema há quase 20 anos e, por isso, demasiado próximos do problema - não chegaram a ver.
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