Uma colisão frontal entre duas baleias parece cena de terror, mas um novo estudo indica que estes gigantes do mar realmente se dão cabeçadas no oceano.
Investigadores da University of St Andrews reuniram evidência visual inequívoca de que os cachalotes embatem uns nos outros com a cabeça.
Durante décadas, marinheiros relataram episódios de baleias a usarem a cabeça para atingir objectos. Alguns relatos iam mais longe e diziam que eram capazes de afundar navios. Mais tarde, estas histórias alimentaram obras célebres como Moby Dick.
Hoje, a investigação científica aproxima-se desses testemunhos antigos. Com ferramentas actuais, a equipa confirmou que os cachalotes recorrem à cabeça como arma e como instrumento de interacção, ligando um comportamento real a narrativas históricas.
A captar cachalotes a dar cabeçadas
Para observar o fenómeno, a equipa juntou-se à Universidade dos Açores e à Asociación Tursiops, acompanhando cachalotes nos Açores e nas Ilhas Baleares.
Em vez de dependerem apenas de observações a partir de embarcações, os cientistas recorreram a drones para seguir os animais a partir de cima. Esta perspectiva permitiu ver com nitidez o que acontece junto à superfície.
As imagens aéreas mostraram cachalotes a aproximarem-se uns dos outros e a estabelecerem contacto directo com a cabeça. Nalgumas sequências, os embates atingiram também outras zonas do corpo.
Durante estes encontros, foi ainda possível ver os animais a rodarem, a abrirem as mandíbulas e a vocalizarem, detalhes que muitas vezes passam despercebidos quando a observação é feita ao nível do mar.
O que acontece, na prática, durante as cabeçadas
O estudo identificou três episódios bem documentados. Num deles, dois cachalotes de dimensões semelhantes nadaram em direcção um ao outro e chocaram de frente. Um terceiro animal, maior, manteve-se por perto, mas não participou no contacto.
Noutro caso, dois machos jovens movimentavam-se em torno de uma fêmea mais pequena. A dada altura, um dos machos mudou bruscamente de trajectória e atingiu a fêmea com a cabeça, com força suficiente para deslocar o corpo dela na água.
O terceiro episódio revelou contacto repetido entre dois animais: um cachalote seguia o outro e voltava a investir sucessivamente. Em determinado momento, chegou mesmo a usar a cauda para bater na cabeça do outro, sugerindo que o comportamento pode repetir-se e variar em intensidade.
Não é só confronto: também pode ser comportamento social
Segundo os autores, nem todos os embates parecem ter intenção claramente agressiva. Em algumas situações, o padrão encaixa melhor em interacção social ou numa forma de brincadeira mais brusca. Muitos dos animais envolvidos eram jovens ou ainda não totalmente crescidos.
Ao mesmo tempo, os cientistas registaram vocalizações, incluindo cliques e “codas”, sons associados à comunicação entre cachalotes. Isto indica que, durante estes contactos físicos, os animais podem estar a interagir em vários canais em simultâneo.
O trabalho aponta ainda para a hipótese de estas cabeçadas ajudarem os jovens a treinar competências que serão relevantes na idade adulta.
Quão fortes podem ser estes impactos
As cabeçadas não são leves. As estimativas sugerem que algumas colisões ocorrem a velocidades até cerca de 13 km/h (3,6 metros por segundo). A essas velocidades, as forças geradas podem ser muito elevadas.
Num dos registos, a força calculada atingiu aproximadamente 200 000 newtons. Em cachalotes adultos maiores, os impactos poderão ser ainda mais intensos, possivelmente até 1 000 000 newtons.
Isto demonstra que estes animais conseguem desferir golpes extremamente potentes com a cabeça, o que também ajuda a compreender como, no passado, poderiam ter danificado embarcações.
O que isto pode significar para a sociedade dos cachalotes
Este comportamento poderá ter implicações na dinâmica dos grupos. Os cachalotes vivem em grupos sociais coesos, sobretudo compostos por fêmeas e juvenis. Acções fortes ou agressivas têm potencial para perturbar o equilíbrio do grupo.
Os machos jovens, à medida que amadurecem, podem apresentar comportamentos mais agressivos, o que pode contribuir para o afastamento do grupo mais tarde. Padrões semelhantes são observados noutros animais, como os elefantes, em que os machos jovens se separam à medida que atingem a maturidade.
Assim, as cabeçadas podem integrar uma fase determinante deste percurso.
Importância de filmar cabeçadas entre cachalotes
O autor principal, o Dr. Alec Burlem, sublinhou o peso desta descoberta, feita enquanto trabalhava na University of St Andrews.
“Foi realmente entusiasmante observar este comportamento, que sabíamos ter sido hipotetizado durante tanto tempo, mas que ainda não tinha sido documentado e descrito de forma sistemática”, comentou.
O registo confirma um comportamento há muito suspeito e abre novas questões sobre a vida dos cachalotes.
O que se segue
Ainda não é totalmente claro por que razão os cachalotes se dão cabeçadas. As explicações possíveis incluem competição, comunicação ou treino para a vida adulta, e serão necessárias mais observações para distinguir estas hipóteses.
“Esta perspectiva aérea única para observar e documentar comportamentos junto à superfície é apenas uma das formas como a tecnologia de drones está a transformar o estudo da biologia da vida selvagem”, acrescentou o Dr. Burlem, actualmente na University of Hawaii.
“É entusiasmante pensar nos comportamentos ainda não vistos que poderemos descobrir em breve, bem como na forma como mais observações de cabeçadas poderão ajudar-nos a esclarecer as funções que este comportamento pode desempenhar. Se houver pessoas por aí com imagens semelhantes, gostaríamos muito de as ouvir”, afirmou o Dr. Burlem.
À medida que o trabalho avança, os cientistas esperam revelar ainda mais comportamentos escondidos. O que antes soava a história de marinheiros passa agora a assentar em evidência científica, lembrando o quanto continua por aprender sobre a vida no oceano.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário