Os guaxinins conseguem, muitas vezes, deixar as pessoas de boca aberta com os seus truques. De repente, a tampa de um compostor levanta-se e a comida lá dentro desaparece.
É frequente assumir-se que estes animais se limitam a procurar alimento onde quer que o encontrem. No entanto, investigação recente aponta para algo mais curioso: os guaxinins podem envolver-se em desafios não apenas por fome, mas porque a curiosidade os leva a aprender.
Um estudo conduzido por investigadores da University of British Columbia analisou ao pormenor a forma como os guaxinins resolvem problemas. Os dados mostram que, muitas vezes, continuam a resolver enigmas mesmo depois de já terem obtido a recompensa.
Este padrão indica que podem estar à procura de informação, e não só de comida. Em ciência, este comportamento é conhecido como forrageamento de informação.
Um olhar sobre a inteligência dos guaxinins
Para investigar o raciocínio e a curiosidade destes animais, as investigadoras Hannah Griebling e a Dra. Sarah Benson-Amram conceberam uma experiência centrada na forma como os animais escolhem entre explorar alternativas novas e repetir soluções que já deram resultado.
A teoria do forrageamento óptimo descreve como os animais tentam maximizar benefícios gastando o mínimo de energia possível na procura de recursos. Ao decidir, precisam de ponderar esforço, tempo e recompensa.
A aprendizagem e a memória têm aqui um papel decisivo. Os animais recolhem informação sobre o ambiente e, mais tarde, usam esse conhecimento para encontrar alimento com maior eficiência.
Os cientistas procuraram perceber se, no caso dos guaxinins, essa recolha de informação também acontece quando já não há comida disponível.
Testar guaxinins com caixas de quebra-cabeças
A equipa desenvolveu uma caixa de quebra-cabeças específica para avaliar a resolução de problemas nos guaxinins. O dispositivo podia ser aberto de nove maneiras diferentes. Cada uma exigia uma acção distinta - por exemplo, mexer num fecho, deslizar uma portinhola ou rodar um manípulo.
A caixa apresentava três níveis de dificuldade: fácil, médio e difícil. Em cada ensaio, existia apenas uma recompensa alimentar no interior.
Na maioria das situações, a recompensa foi uma goma-doce, porque, durante os testes, os guaxinins mostraram preferência por esse alimento face a outras opções.
Participaram dezasseis guaxinins que viviam num centro de investigação no Colorado. Cada animal realizou vários ensaios com a caixa. Em cada sessão, tinham até 20 minutos para interagir com o desafio.
Guaxinins continuaram a resolver os enigmas
Um resultado inesperado surgiu rapidamente: muitos guaxinins continuaram a abrir novas partes da caixa mesmo depois de comerem a goma-doce.
“Não estávamos à espera de que abrissem as três soluções num único ensaio”, disse Griebling. “Continuaram a resolver problemas mesmo quando já não havia uma goma-doce no fim.”
Este comportamento sugere que a curiosidade foi um motor importante. Em vez de pararem quando a recompensa desaparecia, os animais exploravam para compreender como o mecanismo funcionava.
Os investigadores descrevem esta tendência como forrageamento de informação: o animal investe energia para adquirir conhecimento que poderá ser útil mais tarde.
Exploração e escolhas seguras
O estudo também revelou que os guaxinins ajustavam a estratégia consoante a dificuldade do quebra-cabeças.
Quando os desafios eram fáceis, exploravam um leque mais amplo de soluções. Num único ensaio, um guaxinim podia abrir várias portas e accionar diferentes fechos. À medida que os puzzles se tornavam mais difíceis, era mais comum recorrerem a um método que já tinha funcionado antes, em vez de tentarem algo novo.
Este padrão mostra um equilíbrio entre curiosidade e custo. Explorar muitas alternativas pode trazer informação valiosa, mas exige tempo e energia.
“É um padrão familiar para qualquer pessoa a pedir num restaurante”, disse Griebling. “Pede o seu prato preferido ou experimenta algo novo? Se o risco for alto - uma refeição cara de que pode não gostar - escolhe a opção segura.”
“Os guaxinins exploram quando o custo é baixo e decidem rapidamente jogar pelo seguro quando o risco é maior.”
Porque é que os guaxinins têm sucesso nas cidades
Estas competências ajudam a explicar o bom desempenho dos guaxinins em ambientes urbanos. As cidades oferecem inúmeras fontes de alimento e, ao mesmo tempo, muitos obstáculos. Caixotes do lixo, recipientes de comida e composteiros exigem frequentemente alguma capacidade de resolução de problemas.
Os guaxinins beneficiam de várias vantagens físicas e mentais. As patas dianteiras, muito sensíveis, permitem-lhes tactear objectos e manipular fechos. Estas patas evoluíram para procurar alimento em cursos de água, mas acabam por ser igualmente eficazes a abrir recipientes usados por humanos.
Além disso, evidenciam uma forte flexibilidade comportamental. A inovação pode significar usar conhecimento anterior para resolver um problema novo ou aplicar um método novo para resolver um problema antigo. Esta capacidade facilita a adaptação rápida a ambientes em mudança, como os das cidades.
A curiosidade também pode criar problemas
Para as pessoas, a curiosidade destes animais nem sempre é conveniente. Um guaxinim que explora objectos desconhecidos pode aprender a abrir caixotes do lixo ou recipientes de alimentos.
Os investigadores sugerem que isto pode dar origem ao que os cientistas chamam uma “corrida ao armamento cognitivo”. Os humanos criam contentores mais robustos para impedir o acesso. Os guaxinins, por sua vez, aprendem novas formas de os abrir.
A curiosidade aumenta a probabilidade de descobrirem essas soluções. Mesmo que a comida não apareça de imediato, a exploração pode ajudá-los a adquirir truques úteis para mais tarde.
O que o estudo nos diz sobre os animais
Os resultados reforçam uma ideia antiga sobre os guaxinins. Há muito que histórias populares os descrevem como animais espertos, e agora os estudos científicos oferecem evidência sólida que sustenta essa reputação.
“A inteligência dos guaxinins há muito que aparece no folclore, mas a investigação científica sobre a sua cognição continua a ser limitada. Estudos como este fornecem evidência empírica para apoiar essa reputação”, afirmou a Dra. Benson-Amram.
A curiosidade poderá ser uma das razões mais determinantes para o sucesso dos guaxinins em ambientes tão distintos. Um animal pequeno, com uma forte vontade de explorar, consegue descobrir muitas oportunidades novas no mundo que o rodeia.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário