Saltar para o conteúdo

Como algumas árvores podem salvar aves em florestas fragmentadas

Mãos seguram um pássaro colorido perto de binóculos e um livro de ilustrações de aves em campo aberto.

E se proteger as aves nem sempre exigisse enormes extensões de floresta? E se algumas árvores, colocadas nos locais certos, fossem suficientes para causar um impacto significativo? Um novo estudo global indica que sim.

A investigação vem alterar a forma como encaramos a proteção da vida selvagem. Mostra que intervenções pequenas, mas bem direcionadas, podem aumentar as hipóteses de sobrevivência de muitas espécies.

Porque é que florestas fragmentadas continuam a sustentar vida

Em todo o mundo, as florestas estão a dividir-se em parcelas cada vez menores devido à agricultura, à expansão urbana, a estradas e a barragens. Estes pequenos pedaços são conhecidos como remanescentes florestais.

Durante décadas, muitos cientistas assumiram que apenas florestas grandes conseguiriam manter um elevado número de espécies. Já as manchas pequenas eram vistas como frágeis e incapazes de albergar muita vida.

Essa perspetiva foi influenciada pela “teoria das ilhas”. Nela, cada parcela de floresta era tratada como uma ilha: quanto maior a “ilha”, mais espécies conseguiria suportar; quanto mais pequena e isolada, menos. O enfoque recaía quase só no tamanho e no afastamento.

O problema é que este modelo deixava de fora um fator decisivo: aquilo que existe à volta das manchas de floresta. As aves e outros animais não vivem isolados - deslocam-se, procuram alimento e relacionam-se com a paisagem circundante.

Por outras palavras, o espaço fora da floresta também é determinante.

Importância da paisagem envolvente

O território que rodeia um remanescente florestal chama-se matriz. Pode incluir campos agrícolas, pastagens, corpos de água ou árvores dispersas.

Para se deslocarem entre áreas florestais, as aves têm de atravessar essa matriz. A qualidade desse espaço condiciona o quão fácil é sobreviver e circular.

Quando a matriz tem árvores e vegetação, as aves encontram abrigo, conseguem mover-se com maior segurança e podem obter alimento. Já quando o entorno é muito aberto ou dominado por água, a deslocação torna-se mais perigosa. Isso pode resultar na permanência de menos espécies nesses remanescentes.

Um novo estudo demonstra que a matriz tem um peso muito maior do que se pensava. Ao melhorar o território envolvente, até pequenos fragmentos de floresta conseguem sustentar uma grande diversidade de aves.

As árvores aumentam a sobrevivência das aves

A investigação foi liderada por cientistas de várias organizações, que analisaram populações de aves em regiões tropicais e subtropicais.

Os resultados foram inequívocos: os remanescentes florestais rodeados por árvores albergavam mais espécies do que aqueles cercados por áreas abertas. Mesmo um aumento modesto da cobertura arbórea já produzia um efeito marcante.

“Este estudo mostra claramente como paisagens envolventes de elevada qualidade aumentam a retenção de espécies dentro de remanescentes florestais em toda a zona tropical”, afirmou o Professor Carlos Peres, da University of East Anglia.

“Os ganhos para a conservação ao investir numa matriz mais hospitaleira em áreas agrícolas e urbanas são muito maiores do que se tinha percebido anteriormente.”

Isto significa que melhorar o uso do solo nas proximidades pode aumentar fortemente a biodiversidade sem ser necessário alterar a mancha de floresta em si.

Mesma dimensão de floresta, resultados diferentes

O estudo também indica que a dimensão, por si só, não determina quantas espécies uma floresta consegue suportar. Dois remanescentes com a mesma área podem ter resultados muito distintos consoante o que os rodeia.

“O tamanho do remanescente de habitat não é a história completa. Dois remanescentes florestais do mesmo tamanho podem suportar números muito diferentes de espécies de aves – os que estão rodeados por terras agrícolas com árvores nas proximidades podem acolher mais do dobro das espécies do que remanescentes isolados dentro de reservatórios”, explicou o coautor do estudo, Dr. Anderson Bueno.

Esta conclusão é relevante porque mostra que é possível melhorar a biodiversidade sem aumentar a área florestal. Ao acrescentar árvores e tornar o entorno mais favorável, até pequenos fragmentos podem transformar-se em habitats muito ricos.

Pequenas mudanças com efeitos poderosos

Um dos resultados mais interessantes foi perceber quão pouca alteração é necessária para ajudar as aves. Basta um número reduzido de árvores num raio de 300 metros em torno de um remanescente para melhorar a sobrevivência.

Zonas com maior cobertura arbórea apresentaram mais espécies, sobretudo aquelas que dependem inteiramente da floresta - precisamente as que mais sofrem quando a floresta se fragmenta.

“Esperamos que o nosso trabalho contribua para políticas de uso do solo mais eficazes e incentive governos e proprietários a investir em práticas agrícolas favoráveis à vida selvagem, que apoiem simultaneamente a biodiversidade e a produtividade agrícola”, assinalou o Dr. Chase Mendenhall, da Slippery Rock University.

A mensagem é clara: ações simples, como plantar árvores ou manter pequenas parcelas de vegetação, podem beneficiar em simultâneo a natureza e a agricultura.

Uma nova direção para a conservação

Este estudo aponta para uma mudança de abordagem na conservação. Proteger grandes florestas continua a ser essencial, mas melhorar o território em redor é igualmente decisivo.

Plantar árvores nativas, recuperar áreas degradadas e gerir explorações agrícolas de forma compatível com a vida selvagem pode reduzir o risco de perda de espécies. Esta via é prática porque as atividades humanas já influenciam mais de metade da superfície terrestre.

Em vez de olhar apenas para florestas intocadas, é possível trabalhar em paisagens dominadas por pessoas. Assim, constrói-se um equilíbrio em que as necessidades humanas e a natureza podem coexistir.

Um esforço global com provas robustas

A investigação reuniu 58 cientistas de 19 países. Foram analisados 50 levantamentos de aves em regiões das Américas, de África e da Ásia - locais com perdas florestais e fragmentação intensas.

No total, os investigadores estudaram mais de 1,000 remanescentes florestais, incluindo 336 ilhas de floresta formadas por barragens e 669 manchas florestais rodeadas por terra. Ao longo de milhares de observações, foram registadas perto de 2,000 espécies de aves.

O estudo abrangeu espécies com diferentes níveis de risco, desde Em Perigo Crítico até Pouco Preocupante.

Para medir a cobertura arbórea e a presença de aves, foram usados levantamentos de campo, gravações sonoras e imagens de satélite.

Este conjunto de dados, muito abrangente, fornece evidência sólida de que a paisagem envolvente tem um papel central na sobrevivência das espécies.

O que isto significa para o futuro

Os resultados dão esperança. Mostram que medidas simples podem contribuir para proteger a natureza. Plantar árvores, preservar a vegetação próxima e planear melhor o uso do solo pode ajudar as aves a persistir.

No fundo, a saúde das florestas depende do que existe à sua volta. Com um planeamento mais inteligente, é possível proteger a vida selvagem e, ao mesmo tempo, continuar a usar a terra para agricultura e para as necessidades do dia a dia.

Cientistas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha também contribuíram para esta investigação.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário