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Resistência aos rodenticidas: estudo da Rutgers University revela mutações Vkorc1 em ratinhos urbanos no nordeste dos Estados Unidos

Rato em laboratório com gotas verdes na mesa, mão com luva azul e ecrã com sequência de DNA ao fundo.

Os roedores vivem ao lado das pessoas há milhares de anos - e, durante grande parte desse tempo, os humanos têm tentado expulsá-los.

Hoje, a arma principal continua a ser o veneno e, durante décadas, essa estratégia foi suficientemente eficaz.

Nos últimos anos, porém, empresas e técnicos de controlo de pragas em vários pontos do nordeste dos Estados Unidos começaram a deparar-se com um fenómeno difícil de explicar.

Em alguns bairros, ratinhos e ratos resistiam a tratamento após tratamento com produtos que, em teoria, deveriam ser letais.

Uma equipa da Rutgers University decidiu investigar o que estava a acontecer. O que descobriram aponta para um cenário inquietante: muitos ratinhos urbanos poderão estar a evoluir para ultrapassar os venenos usados para os controlar.

Os venenos para ratos estão a perder eficácia

Grande parte do controlo de roedores nos EUA assenta em rodenticidas anticoagulantes. Estes compostos bloqueiam uma enzima essencial para a coagulação do sangue, desencadeando hemorragias internas fatais.

Este tipo de produtos sustenta o controlo de roedores desde a década de 1950. A sua previsibilidade tornou-os na opção padrão para profissionais de controlo de pragas praticamente em todo o lado.

Atualmente, são usadas duas gerações destes venenos: uma classe mais antiga e outra mais recente e mais potente. Ambas continuam a ser colocadas em caixas de isco em habitações e estabelecimentos comerciais.

Essa confiança, no entanto, parece estar a falhar em determinados locais. Os primeiros alertas chegaram ao laboratório através de quem aplica os produtos no terreno.

“Os profissionais de gestão de pragas diziam-nos frequentemente que o controlo de roedores estava a tornar-se mais difícil em algumas áreas, apesar de aplicarem os rodenticidas eficazes”, afirmou Jin-Jia Yu, primeiro autor do estudo.

Um gene ajuda os ratinhos a resistir ao veneno

Os investigadores concentraram-se num gene chamado Vkorc1. Certas mutações neste gene alteram a forma da proteína que ele produz.

Com essa alteração, o veneno liga-se com menos força ao seu alvo. Assim, um roedor com a mutação certa consegue suportar uma dose que mataria outros à sua volta.

Há anos que os cientistas usam o Vkorc1 como indicador para compreender a resistência. Ao mapear as suas mutações, é possível perceber onde os roedores resistentes estão a ganhar terreno.

Resistência ao veneno no ADN dos ratinhos

A equipa analisou ADN de 147 ratinhos-domésticos e de 143 ratos noruegueses.

Os animais foram recolhidos em zonas urbanas de Nova Iorque, Nova Jérsia, Pensilvânia e Washington, DC, entre 2021 e 2025.

Os dados dos ratinhos foram particularmente expressivos. Entre os ratinhos analisados, 84% tinham pelo menos uma mutação no Vkorc1 e perto de 70% apresentavam alterações já conhecidas por ajudar os ratinhos a sobreviver a venenos comuns.

Duas mutações destacaram-se. Uma, conhecida como Y139C, surgiu em 42% dos ratinhos; outra, chamada L128S, apareceu em 33%.

Um inquérito anterior, de âmbito nacional, tinha encontrado estas variantes de resistência em muito menos ratinhos. Como os estudos recolheram amostras em locais diferentes, essa discrepância não pode ser interpretada como uma tendência temporal clara.

Os ratos mostram uma história diferente

Nos ratos noruegueses, o cenário foi mais moderado. Cerca de 35% apresentaram algum tipo de mutação no gene Vkorc1.

A diferença está no efeito dessas alterações. Nenhuma correspondeu às variantes já associadas à resistência dos ratos aos venenos.

“Descobrimos que a resistência parece estar muito mais disseminada nos ratinhos-domésticos do que muitas pessoas imaginavam”, disse Yu.

“Os ratos noruegueses também apresentaram mutações genéticas, mas os cientistas ainda não sabem se a maioria dessas mutações afecta a susceptibilidade dos ratos noruegueses aos rodenticidas.”

Porque é que os ratinhos se adaptam mais depressa

Porque razão os ratinhos parecem avançar mais rapidamente, enquanto os ratos ficam para trás? Uma parte da explicação poderá estar no comportamento.

Os ratinhos tendem a ser curiosos. Exploram objectos novos e provam alimentos desconhecidos - incluindo iscos - com relativa facilidade.

Os ratos, pelo contrário, são muito mais desconfiados. Muitas vezes dão voltas e voltas a algo novo antes de arriscarem uma dentada.

“Os ratos são muito inteligentes”, afirmou Yu. “Aproximam-se muitas vezes do alimento novo antes de realmente o comerem ou de pegarem no isco.”

Essa prudência poderá poupar os ratos a uma exposição contínua ao veneno, que é precisamente o tipo de pressão que favorece a resistência. Já os ratinhos, ao comerem mais livremente, ficam sujeitos a um impulso evolutivo mais forte para se adaptarem.

Novas mutações nunca vistas antes

O levantamento identificou ainda variantes genéticas que não tinham sido registadas anteriormente. Duas delas - A32V e Y139F - eram novas para esta subespécie de ratinho-doméstico.

Nos ratos noruegueses, surgiu pela primeira vez, em qualquer população em qualquer parte do mundo, uma mutação chamada L128V. Foi detectada em três ratos recolhidos em Brooklyn.

Ainda não se sabe se estas variantes recentes ajudam os roedores a sobreviver ao veneno. Segundo os investigadores, cada uma terá de ser testada directamente antes de se tirarem conclusões.

Repensar a forma como combatemos os roedores

O impacto vai muito além do custo do controlo de pragas. Os roedores contaminam alimentos, danificam edifícios e disseminam doenças e parasitas em bairros densamente povoados.

Se os rodenticidas padrão continuarem a perder eficácia, as infestações poderão tornar-se mais difíceis de conter. Essa possibilidade preocupa tanto os responsáveis de saúde pública como os exterminadores.

Há ainda o problema do efeito indirecto na vida selvagem. Aves de rapina, como falcões e corujas, e também necrófagos urbanos, têm sido encontrados com estes químicos no organismo - por vezes em doses fatais - após se alimentarem de roedores envenenados.

“Esta investigação fornece algumas das primeiras informações sobre a resistência a rodenticidas no nordeste dos Estados Unidos”, disse Yu.

“Ao compreendermos quão prevalentes são as mutações e onde existe resistência, os profissionais de gestão de pragas e as agências de saúde pública podem tomar melhores decisões sobre como controlar os roedores.”

São necessários métodos de controlo mais abrangentes

Changlu Wang, coautor e especialista de extensão que lidera o laboratório responsável pelo trabalho, considera que os números deixam uma mensagem mais ampla.

“Os roedores são mais do que um incómodo”, afirmou Wang. “À medida que a resistência se torna mais comum, torna-se ainda mais importante usar estratégias de gestão baseadas na ciência que protejam a saúde pública e o ambiente.”

A recomendação passa por não depender apenas de químicos. Selar pontos de entrada, melhorar a higiene, alterar o habitat e usar armadilhas podem repartir o esforço de controlo.

“No fim, queremos ajudar as comunidades a manter um controlo eficaz de roedores, reduzir o uso desnecessário de pesticidas e proteger a saúde pública”, disse Yu.

Os venenos ainda não deixaram de funcionar. O que os dados sugerem é que os ratinhos estão a aproximar-se rapidamente desse patamar - e que é altura de tornar o combate mais inteligente.

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