Durante muito tempo, a ciência deu como certo que só os machos cantavam - para atrair parceiras ou para marcar e defender território. Investigação recente revela, porém, um cenário bem diferente e bastante mais interessante.
Durante décadas, a maioria dos estudos centrou-se quase exclusivamente nos machos. Partiu-se do princípio de que as fêmeas se mantinham em silêncio e tinham um papel passivo. Essa suposição influenciou a forma como especialistas interpretaram o canto das aves e a comunicação vocal.
Um trabalho da Universidade de Viena e da Universidade Anglia Ruskin vem pôr em causa essa visão. As fêmeas também cantam e, em muitas espécies, esse comportamento é frequente.
Na verdade, o canto das fêmeas está presente em mais de metade de todas as espécies de aves canoras e pode até ser um traço antigo, transmitido ao longo do tempo.
Esta descoberta mostra que, durante anos, a ciência deixou escapar uma parte essencial do comportamento das aves.
Um canto inesperado nas Galápagos
Os investigadores estudaram felosas-amarelas-das-Galápagos na ilha de Floreana. No trabalho de campo, a equipa ouviu um canto que não correspondia a nenhuma gravação conhecida.
Pouco depois, perceberam que o som era produzido por uma fêmea. Este resultado destacou-se porque estudos anteriores não tinham registado canto de fêmeas nesta espécie.
O estudo tornou-se a primeira evidência clara de que as fêmeas de felosa-amarela-das-Galápagos cantam tanto sozinhas como em conjunto com o parceiro.
Esse momento levou a uma pergunta decisiva: se não for pelas mesmas razões dos machos, porque é que as fêmeas cantam?
Como foi testado o comportamento das aves
Para compreender a função do canto das fêmeas, a equipa desenhou experiências no habitat natural das aves. Foram reproduzidas gravações de canto de machos, de fêmeas e de duetos.
As reacções foram observadas tanto na época de reprodução como fora dela. Os investigadores quantificaram comportamentos agressivos - como a aproximação à fonte de som - e registaram a frequência com que as aves cantavam.
Este desenho experimental permitiu pôr à prova duas explicações comuns: as fêmeas poderiam cantar para competir com outras fêmeas ou para defender território.
Ideias antigas sobre o canto das aves
Os dados não confirmaram essas hipóteses. As fêmeas exibiram agressividade marcada, sobretudo fora da época de reprodução. Ainda assim, o canto não acompanhou esse padrão de agressão.
“Male song was closely linked to aggression during territorial encounters,” explica o primeiro autor, Alper Yelimlieş, do Departamento de Biologia Comportamental e Cognitiva da Universidade de Viena.
“In females, however, singing and aggression appeared to be unrelated behaviours.”
O estudo mostrou ainda que, apesar de reagirem de forma agressiva a intrusos, as fêmeas cantavam menos quando ouviam outras fêmeas. Este resultado não sustenta a ideia de competição entre fêmeas.
O canto varia com as estações
As fêmeas não cantavam de forma constante ao longo do ano. Durante a época de reprodução, apenas um pequeno número de fêmeas cantou; já fora dessa época, a maioria cantou.
Uma possível explicação é que, durante a reprodução, as fêmeas passam mais tempo a construir ninhos e a cuidar dos ovos. Cantar pode desviar tempo e energia dessas tarefas. Além disso, vocalizar perto do ninho pode aumentar o risco de atrair predadores.
Em contraste, os machos cantaram em ambas as estações e apresentaram um comportamento mais estável. Esta diferença sugere que machos e fêmeas podem usar o canto de formas distintas.
Cantar em dueto no casal
Um dos resultados mais interessantes envolve os duetos. As fêmeas raramente cantavam a solo. A maioria dos cantos ocorreu em dueto com o parceiro, e, na maior parte das vezes, era o macho a iniciar.
Fora da época de reprodução, muitos dos cantos de fêmeas foram registados em dueto. Os machos, por sua vez, cantaram sobretudo sozinhos.
“Most female songs occurred as duets with their paired mates, suggesting that they may function in communication within the pair rather than as a territorial signal,” disse Yelimlieş.
“Studying female song is therefore essential for a complete understanding of how vocal communication evolves in birds.”
No conjunto, estes padrões indicam que o canto pode ajudar o casal a manter ligação ou a coordenar acções.
Um propósito diferente para o canto das aves
O estudo também concluiu que o canto não ajudou as fêmeas a manter território. A taxa de canto e a agressividade não influenciaram se uma fêmea manteve ou perdeu o seu território ao longo do tempo.
Este resultado contraria uma das explicações mais repetidas sobre o canto das aves. Em vez de servir para confronto ou defesa de espaço, o canto das fêmeas pode ter como principal função a comunicação dentro do casal.
Em algumas situações, cantar poderá ajudar os parceiros a manterem-se próximos ou a evitar confusão durante interacções tensas. Também pode contribuir para reforçar a ligação entre pares.
O mistério do canto das fêmeas
Esta investigação evidencia uma falha importante na ciência do passado. Durante anos, o canto das fêmeas foi ignorado, o que limitou a compreensão da comunicação animal.
O estudo indica que tanto machos como fêmeas têm papéis activos na comunicação. E lembra a necessidade de questionar suposições antigas e de explorar comportamentos que ficaram de fora.
As fêmeas de felosa-amarela-das-Galápagos cantam com frequência, sobretudo fora da época de reprodução. O canto surge, em geral, sob a forma de duetos e não de actuações a solo. Além disso, não se relaciona directamente com agressividade nem com defesa de território.
A investigação abre novas perguntas sobre como os animais comunicam e porque é que os cantos evoluem. E também muda a forma como as pessoas interpretam os sons da natureza.
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