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Cycloseris cyclolites: o coral que se desloca no fundo do mar para seguir a luz azul

Coral marinho em forma de flor com tentáculos sob água transparente e areia no fundo do oceano.

Quando pensamos num coral, raramente o imaginamos a andar. E com razão: na maioria dos casos, os corais são sésseis, ou seja, permanecem presos ao substrato do seu habitat - muitas vezes ao recife formado pelos “ossos” calcários de gerações anteriores.

Ainda assim, há corais que fogem a esse estilo de vida imóvel. Entre esses casos fora do comum, um minúsculo coral-cogumelo chamado Cycloseris cyclolites encontrou uma forma de se deslocar sobre fundos arenosos e, literalmente, perseguir o sol.

Um coral que não fica parado: Cycloseris cyclolites

Uma equipa liderada pelo cnidariologista Brett Lewis, da Universidade de Queensland, recorreu a vídeos em câmara acelerada para observar estes corais a deslizarem nos aquários. A estratégia, segundo os autores, lembra a das medusas - parentes “soltos” dos corais, não fixos ao fundo.

À escala humana, trata-se de um modo de locomoção extremamente lento: num dos registos, um coral avançou apenas 43.73 milímetros ao longo de 24 horas.

Lewis descreve que, durante a primeira hora (aproximadamente), o coral começou por inchar, à medida que os tecidos mais externos se enchiam, o que permitiu elevar o centro do corpo a partir do fundo.

"Fiquei a ver esta coisa durante muito tempo, a pensar que ia rebentar", contou Lewis a Jason Bittel, no New York Times. "Pensei: 'Valha-me Deus, isto está a demorar imenso a acontecer'".

A mecânica do movimento: inflação pulsada e um “pé”

Depois, quando esse tecido insuflado contraiu, o ponto de contacto com a superfície passou para uma espécie de estrutura de “pé” por baixo do coral, permitindo-lhe avançar aos poucos.

De acordo com o novo estudo, estes deslocamentos são orientados na direcção de uma fonte específica de luz, através da contracção e torção do tecido externo - "o que impulsionou o coral para a frente de forma coordenada, num padrão que se assemelha ao movimento de natação pulsada das medusas", escrevem os investigadores.

Para uma colónia de coral, este esforço deverá ser energeticamente exigente. Ainda assim, pode compensar, tendo em conta que a gravidade, as ondas, as correntes e até outros animais conseguem empurrar estes corais para locais pouco favoráveis.

A importância de encontrar uma posição adequada está ligada ao modo como a maioria dos corais obtém energia: dependem de uma simbiose com dinoflagelados alojados nos seus tecidos. Estes organismos unicelulares produzem energia a partir da luz solar, e o coral aproveita esse “rendimento”. Por isso, o local - e a quantidade/qualidade de luz que lá chega - é determinante.

No caso de um coral de vida livre como Cycloseris cyclolites, conseguir subir de uma depressão à sombra, mesmo que leve muito tempo, pode significar a diferença entre viver e morrer.

"Os nossos resultados sugerem que a inflação pulsada não é apenas uma estratégia de sobrevivência, mas um mecanismo crítico de migração e navegação", afirma Lewis.

"A capacidade de Cycloseris cyclolites se mover em direcção a fontes específicas de luz é um paralelo fascinante com outras espécies marinhas, como as medusas, o que sugere que são neurologicamente mais sofisticados do que se pensava anteriormente".

Luz azul vs. luz branca: o que os testes mostraram

Para observar o comportamento em detalhe, os aquários foram mantidos quase às escuras, com um “isco” de luz branca ou azul a iluminar uma das extremidades.

O padrão foi claro: os corais pareceram reagir sobretudo à luz azul. Quando a opção era apenas uma fonte, 86.7 percent dos corais dirigiram-se para a luz azul, ao passo que apenas 13.3 percent o fizeram quando a oferta era luz branca. Num ensaio em que havia luz azul numa ponta e luz branca na outra, os três corais observados escolheram a luz azul.

Os autores explicam que as fontes estreitas de luz azul (~420 nm e ~510 nm) se aproximam das condições típicas do habitat desta espécie em bancos de areia de águas mais profundas, onde comprimentos de onda acima de aproximadamente 480 nm já não chegam. Já a luz branca, por abranger uma faixa ampla de comprimentos de onda, é mais parecida com a iluminação das águas superficiais e pouco profundas.

A equipa aponta ainda que as temperaturas das águas rasas podem ser prejudiciais para a “quinta” de dinoflagelados do coral - como se observa no branqueamento dos corais -, o que pode ajudar a explicar a tendência para evitarem zonas iluminadas com luz branca.

"Os resultados também têm implicações ecológicas importantes", diz Lewis.

"Compreender as suas estratégias de movimento pode ajudar os cientistas a prever como os corais migratórios poderão resistir, sobreviver ou adaptar-se a alterações nas condições ambientais, como mudanças à superfície do mar provocadas pelas alterações climáticas, que podem ser atenuadas pelas águas mais profundas para onde estes corais migram."

"Com o aumento destes factores impulsionados pelo clima, quanto mais rápida for a migração, maior é a probabilidade de sobrevivência."

A investigação foi publicada na PLOS One.

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