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Estudo revela duas espécies de felosa-das-folhas no Japão, incluindo a felosa-das-folhas de Tokara

Homem a observar e gravar cantos de dois pássaros numa paisagem litoral com vegetação e colinas.

Um estudo recente concluiu que uma ave migratória rara no Japão, durante muito tempo considerada uma única espécie, é afinal composta por duas espécies distintas de felosa-das-folhas - incluindo uma até agora desconhecida da ciência.

Esta reclassificação faz com que cada população passe a ser vista como um conjunto muito mais pequeno e vulnerável, alterando a forma como o risco de sobrevivência deve ser avaliado.

O canto da felosa-das-folhas de Tokara

Nas remotas cadeias de ilhas de Izu e de Tokara, aves praticamente indistinguíveis à vista revelaram pertencer a espécies diferentes.

Ao comparar os seus cantos e o ADN, Per Alstrom, da Universidade de Uppsala, mostrou que a população de felosa-das-folhas de Tokara constitui uma linhagem própria.

O que antes parecia apenas uma diferença ténue acabou por corresponder a uma separação com milhões de anos, e não a uma divergência recente.

Como o aspeto exterior dá poucas pistas, a distinção assenta sobretudo em sinais biológicos “invisíveis”, que exigem explicação adicional para serem plenamente compreendidos.

O ADN confirma a separação da felosa-das-folhas de Tokara

Ao longo do genoma, as felosas-das-folhas de Tokara e de Izu formaram dois grupos separados, sem indícios de mistura recente.

A evidência mitocondrial situou a separação entre cerca de 2.8 e 3.2 milhões de anos, uma divisão profunda para aves tão semelhantes.

Mesmo os migradores da população de Izu que passam pelo sul do Japão pareciam não cruzar e reproduzir-se com o grupo de Tokara.

Uma separação tão prolongada tornou difícil ignorar a nova classificação e elevou o caso acima de uma mera diferença regional.

Porque é que o olhar não detetou a diferença

As felosas-das-folhas costumam frustrar observadores de aves, porque muitas espécies são quase idênticas - sobretudo quando a plumagem praticamente não denuncia nada.

Neste caso, exemplares de museu não mostraram diferenças de plumagem, o que sustentava a ideia de espécie críptica: uma espécie “oculta” por uma aparência quase igual.

Foi o canto que desbloqueou o impasse: 100% das gravações de Tokara e 97% das de Izu foram atribuídas ao grupo correto.

“São as análises de ADN e as diferenças no canto que mostram que esta é uma espécie separada”, disse Alstrom.

A felosa-das-folhas de Tokara como nova espécie

Depois de aceite a separação, as aves de Tokara receberam o nome científico Phylloscopus tokaraensis, enquanto as de Izu mantiveram Phylloscopus ijimae.

A decisão foi além de ajustar uma designação, porque alterou a forma como a raridade destas aves passa a ser contabilizada no Japão.

Durante anos, a comunidade científica tratou os dois arquipélagos como uma única espécie de felosa-das-folhas, apesar de estarem separados por cerca de 1 000 quilómetros (620 milhas).

Ao reconhecer duas espécies, a população de Tokara deixou de poder “diluir-se” num total mais amplo e menos rigoroso.

Um habitat limitado

A cadeia de Tokara oferece muito pouco espaço, e a reprodução foi confirmada apenas em Nakanoshima, uma das suas ilhas.

Investigadores ouviram machos a cantar em cinco ilhas, mas um levantamento recente não conseguiu encontrar as aves em Tairajima, uma das Ilhas Tokara.

Doninhas introduzidas e cabras domésticas agravaram a pressão, seja por predarem aves, seja por alterarem o habitat em ilhas já de pequena dimensão.

A escala destas ameaças locais torna-se ainda mais crítica quando uma espécie ocupa tão pouco território e dispõe de poucos locais para recuperar.

Os genomas guardam cicatrizes

Ambas as espécies apresentaram também baixa diversidade genética - isto é, pouca variação de ADN dentro da população - ao longo de grande parte dos seus genomas.

Esse padrão costuma indicar estrangulamentos populacionais no passado, quando o número de indivíduos cai e apenas uma fração limitada da diversidade genética permanece.

Tokara parecia mais empobrecida do que Izu, o que encaixa na hipótese de um declínio mais acentuado na sua população insular.

Ainda assim, os genomas não evidenciaram uma carga recente elevada de variantes prejudiciais, sugerindo alguma recuperação.

Recuperação com limites

Sinais de recuperação não apagam o passado, porque ambas as aves continuam a mostrar marcas de quedas populacionais anteriores.

Segmentos curtos de ADN coincidente apontaram para algum grau de consanguinidade no passado, sobretudo em Tokara, onde a população aparenta ser mais pequena.

Uma doença, danos no habitat ou uma época de reprodução particularmente má podem ter um impacto mais severo quando restam tão poucos indivíduos.

O resultado é um quadro entre uma esperança cautelosa e o facto evidente de que a raridade pode transformar-se rapidamente em perda.

As prioridades de proteção mudam

A Felosa-das-folhas de Ijima já estava classificada como Vulnerável na ficha informativa da BirdLife, e os investigadores defenderam que a Felosa-das-folhas de Tokara merecia o mesmo estatuto.

Ao dividir uma espécie em duas, essa recomendação tornou-se mais urgente, porque cada ave passa agora a depender apenas dos seus próprios números.

A monitorização pode detetar problemas cedo, quer venham de predadores, doenças, alterações do habitat ou dificuldades ao longo das rotas migratórias.

O reconhecimento formal é decisivo, porque as regras e prioridades de conservação tendem a aplicar-se a espécies nomeadas, e não a linhagens ocultas.

Para lá de uma única felosa-das-folhas

As aves de ilhas desaparecem muitas vezes em silêncio, e as que parecem comuns ou pouco marcantes podem ser as mais fáceis de ignorar.

“Isto mostra como é importante usar métodos genéticos para revelar biodiversidade escondida numa altura de crise global da biodiversidade”, disse Alstrom.

A observação vale para além do Japão: espécies sem nome também podem ficar por contar - e por proteger.

Aqui, o trabalho moderno com ADN não substituiu a biologia de campo, mas completou uma história que já vinha a ser construída por cantos, exemplares e geografia.

O Japão não ganhou apenas um novo nome de ave; ganhou também um retrato mais nítido do risco enfrentado por duas espécies insulares frágeis.

Esse retrato mais claro dá agora aos conservacionistas um ponto de partida mais honesto, embora ambas as aves possam continuar altamente vulneráveis.

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