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Penas das aves enviam calor para o espaço: a codorniz-da-Virgínia-do-norte destaca-se

Pássaro colorido sobre livro aberto com uma pena desenhada e chama laranja, ao ar livre num campo seco.

Cientistas conseguiram, pela primeira vez, quantificar de que forma as penas das aves encaminham o calor do corpo para o espaço, e identificaram a codorniz-da-Virgínia-do-norte como um emissor invulgarmente forte.

O resultado altera a forma como se olha para as penas: não são apenas uma “camada” associada à cor, mas sim estruturas térmicas activas que influenciam a maneira como as aves ganham e perdem calor.

As penas das aves enviam calor para cima

Ao analisar penas de cinco espécies norte-americanas, os investigadores observaram que algumas aves libertam calor para cima, através do ar livre, de forma mais eficaz do que outras.

Thomas Lee, da University of California, Los Angeles (UCLA), mostrou que as codornizes-da-Virgínia-do-norte emitem mais calor do que espécies próximas.

A diferença manteve-se mesmo quando, a olho nu, as aves tinham uma coloração semelhante, o que separa a aparência visual do modo como as penas gerem energia.

Embora a variação entre a maioria das espécies tenha sido pequena - o que limita conclusões amplas -, o trabalho define um mecanismo mensurável e abre caminho a comparações mais rigorosas.

Cores invisíveis e calor no infravermelho

As tonalidades visíveis explicam apenas parte do fenómeno, porque uma grande fracção da energia do Sol chega fora do intervalo que os humanos conseguem ver.

Por isso, a equipa acompanhou a radiação no infravermelho próximo, já que as penas podem reflecti-la sem alterar o aspecto do animal.

Os investigadores também quantificaram o infravermelho médio - o calor emitido por corpos quentes -, relevante quando aves expostas perdem energia para cima através de ar limpo.

Deste modo, duas aves podem parecer quase iguais e, ainda assim, aquecer com a luz solar e perder calor a ritmos diferentes.

As aves gerem o calor por região

Entre várias espécies, as regiões mais quentes tenderam a coincidir com penas que absorviam menos da energia total do Sol.

Uma absorvância mais baixa - a proporção da radiação incidente que uma superfície retém - reduz a carga térmica antes de a ave recorrer ao arrefecimento activo.

Os pardais-cantores dos desertos do sul da Califórnia apresentaram a menor captação solar, ao passo que as codornizes do Iowa absorveram mais do que aves do México ou da Florida.

Trabalhos anteriores já indicavam que a reflexão no infravermelho próximo pode proteger as aves do calor; estes padrões regionais tornam essa ideia mais nítida.

Aves semelhantes gerem o calor de forma distinta

As codornizes revelaram-se relevantes por outra razão: a cor visível não antecipou como as penas lidavam com comprimentos de onda “ocultos”.

As aves do Iowa, da Florida e do sul do México pareciam semelhantes aos olhos humanos, mas a absorção solar total divergiu quando se considerou a luz invisível.

Esta falta de correspondência sugere que a plumagem pode manter a camuflagem e, ao mesmo tempo, alterar a gestão do calor - algo potencialmente vantajoso em pradarias e campos abertos.

Com céu aberto, pequenas alterações ópticas podem ter impacto mesmo quando as penas não parecem diferentes.

O céu aberto facilita a fuga do calor

Os habitats abertos tornaram as codornizes particularmente úteis para o estudo, porque aves de pradaria passam longos períodos sem qualquer cobertura acima além do céu.

Nessas condições, o calor pode escapar através de uma janela atmosférica - comprimentos de onda que atravessam o ar com facilidade - em vez de regressar de imediato.

Sem telhado, ramos ou falésias por cima, parte do calor corporal sobe na direcção de um céu mais frio, em vez de permanecer junto da ave.

A exposição ao céu pode funcionar como uma pressão selectiva real, embora o estudo tenha sido demasiado pequeno para quantificar a sua força exacta.

Aves negras lidam com o calor de outra maneira

Os corvos-comuns tornaram a história mais complexa, porque aves igualmente negras à vista não processaram a luz solar da mesma forma.

As suas subespécies - populações regionalmente distintas dentro da mesma espécie - exibiram diferenças na captação do infravermelho próximo, apesar de a visão humana quase não detectar contrastes.

Os corvos de regiões quentes absorveram mais luz solar total do que os de regiões mais frescas, embora ambos os grupos parecessem negros aos nossos olhos.

Visto assim, a plumagem escura não implica um custo térmico fixo em toda a espécie.

Penas escuras nem sempre significam sobreaquecimento

Penas escuras não levam automaticamente ao sobreaquecimento, porque a localização da energia absorvida pode ser tão importante quanto a carga total.

Estudos mais antigos sobre plumagem mostraram que o vento e a estrutura das penas podem alterar de forma marcada quanta energia solar absorvida chega, de facto, à pele.

Assim, é possível que corvos de climas quentes absorvam mais luz solar sem sofrer a penalização que uma regra simples baseada na cor faria prever.

A biologia térmica depende, portanto, do vento, do comportamento e da estrutura das penas, além da tonalidade e da temperatura do ar.

Limites das medições

O trabalho manteve-se preliminar, porque medir aves inteiras levou ao limite instrumentos concebidos para materiais artificiais, mais limpos e planos.

Em muitas populações havia apenas três exemplares, e separar penas individuais gerou leituras enganadoras, em vez de reflectir o comportamento real da superfície de uma ave.

Numa verificação, as medições no dorso intacto de um pardal-cantor foram quase três vezes superiores às de uma única pena solta.

Ainda assim, estas limitações mostram por que motivo as colecções de museu conseguem responder a perguntas a que o trabalho de campo, por si só, dificilmente chega.

Penas de aves inspiram tecnologia de arrefecimento

O impacto vai além da biologia, porque a óptica das penas pode orientar materiais que se mantêm mais frescos sem bombas nem energia.

“Um ‘tema quente’ na engenharia térmica é criar estruturas de arrefecimento passivo”, afirmou Lee recentemente.

A conjugação entre reflexão da luz solar e emissão de calor torna as penas modelos apelativos para o desenho de soluções de arrefecimento passivo.

A conservação também poderá beneficiar, uma vez que características térmicas escondidas podem ajudar a antecipar que populações suportam melhor dias mais quentes.

Um novo papel para as penas das aves

A plumagem parece agora menos uma decoração e mais um equipamento climático, ajustado entre cor, luz solar e a capacidade de deixar o calor escapar.

A cor das penas continua a ser importante, mas propriedades térmicas menos visíveis acrescentam uma dimensão à forma como as aves se adaptam ao seu ambiente.

Essa dimensão adicional pode apoiar previsões de conservação mais fiáveis e materiais de arrefecimento mais inteligentes, ao mesmo tempo que recorda aos investigadores quanto ainda permanece fora da vista.


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