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Alimentos ultra-processados podem diminuir a fertilidade e a probabilidade de gravidez

Casal jovem a cortar legumes na cozinha, com sapatinhos de bebé e ecografia na bancada.

Batatas fritas de pacote, pizza congelada, noodles instantâneos, refrigerantes: para muita gente, estes produtos fazem parte do dia a dia - sobretudo quando falta tempo e energia. Uma nova análise de dados internacionais sugere agora que o preço desta conveniência pode ser mais alto do que se pensava e que pode influenciar diretamente a probabilidade de engravidar. Em particular, as mulheres em idade fértil passaram a estar no centro das atenções da investigação.

O que preocupa os investigadores nos alimentos ultra-processados

Uma equipa liderada por Celine H. X. Lin e Romy Gaillard analisou dados de grandes estudos de acompanhamento de longo prazo, nos quais várias milhares de mulheres foram observadas ao longo de anos. A questão principal foi simples: a proporção de produtos altamente processados na alimentação afeta a fertilidade?

Para classificar os alimentos, recorreu-se à chamada classificação NOVA, que divide a alimentação em quatro grandes grupos - desde alimentos não processados (por exemplo, fruta, legumes, leguminosas) até produtos fortemente produzidos pela indústria.

  • Produtos tipicamente ultra-processados: refeições prontas, sopas instantâneas, snacks congelados, cereais de pequeno-almoço açucarados, doces, refrigerantes, iogurtes aromatizados, salsichas e carne reconstituída.
  • Traços em comum: muitos aditivos, elevado nível de processamento, riqueza em açúcar, sal ou gorduras pouco saudáveis, e baixo teor de fibra e de micronutrientes.

"Quanto maior a proporção de alimentos ultra-processados na alimentação diária, menor a probabilidade de uma gravidez - independentemente da idade ou do peso."

Os investigadores observaram um padrão claro: as mulheres que consumiam mais frequentemente estes produtos apresentavam menos probabilidades de terem uma gravidez bem-sucedida do que aquelas com um padrão alimentar mais “clássico”, assente em alimentos frescos ou apenas ligeiramente processados.

Números consistentes: a alimentação como fator independente

Para garantir que o efeito não era apenas um resultado estatístico casual, a equipa teve em conta vários fatores de confusão, como idade, índice de massa corporal, nível de escolaridade, tabagismo e outros indicadores de saúde. Ainda assim, a associação manteve-se.

A análise indicou que, sempre que a percentagem de produtos ultra-processados aumentava no conjunto da dieta, diminuíam as probabilidades de engravidar dentro de um determinado período. Ou seja, não existe um “valor mágico” a partir do qual tudo muda de repente; o efeito negativo parece acumular-se de forma gradual.

Os autores sublinham que se trata de uma correlação. Em termos práticos: alimentos altamente processados surgem associados a menor fertilidade, mas não podem ser apontados como causa única e isolada. Outros aspetos do estilo de vida - como stress, sedentarismo ou padrões de sono - também entram na equação.

"A alimentação torna-se, assim, uma alavanca que pode ser modificada - ao contrário de fatores como predisposição genética ou idade mais avançada."

O que acontece no corpo: efeitos precoces já visíveis no embrião

Um ponto particularmente relevante (e preocupante) é que a equipa não se limitou ao desfecho “engravidou ou não engravidou?”. Também avaliou a qualidade dos embriões em fases muito iniciais, recorrendo a dados de ciclos de fertilização in vitro (FIV).

Em contexto de FIV, médicas e médicos conseguem acompanhar com grande detalhe o desenvolvimento embrionário: a regularidade das divisões celulares, a estabilidade da estrutura e a estimativa, por especialistas, da probabilidade de o embrião vir a implantar-se com sucesso no útero.

Os resultados sugerem que as mulheres com consumo elevado de alimentos ultra-processados apresentavam menos frequentemente embriões com boa qualidade inicial. Isto aponta para a possibilidade de a alimentação influenciar etapas antes da implantação - ao nível dos ovócitos e das primeiras divisões celulares.

Possíveis mecanismos biológicos por trás do fenómeno

Os investigadores avançam várias explicações plausíveis, em parte sustentadas por outras linhas de investigação:

  • Défices de nutrientes: produtos altamente processados têm, muitas vezes, poucos micronutrientes (como ácido fólico, zinco, vitamina D e ácidos gordos ómega-3), relevantes para a maturação dos ovócitos e para o equilíbrio hormonal.
  • Excesso de açúcar e gorduras saturadas: pode desregular a glicemia e a insulina, favorecer processos inflamatórios e, assim, prejudicar a função dos ovários.
  • Inflamação crónica: uma inflamação ligeira, mas persistente, pode interferir com processos sensíveis no tecido ovárico e no endométrio.
  • Stress por radicais livres: o stress oxidativo pode danificar diretamente os ovócitos e reduzir a qualidade embrionária nas fases iniciais.

A isto podem somar-se potenciais efeitos de aditivos ou componentes das embalagens que atuem como substâncias com atividade hormonal. Mesmo pequenas alterações num sistema hormonal finamente regulado podem ser suficientes para desorganizar o ciclo e a maturação dos ovócitos.

Porque é que o tema se torna uma questão de saúde para toda a sociedade

Em muitos países ocidentais, os alimentos ultra-processados representam mais de metade da ingestão diária de calorias. Entre adultos mais jovens, é frequente optar por snacks rápidos e de longa duração - por conveniência, pressão de custos ou simples hábito.

Ao mesmo tempo, cada vez mais casais enfrentam dificuldades relacionadas com o desejo de ter filhos. Estimativas indicam que cerca de uma em cada seis mulheres, ao longo da vida, tem problemas para engravidar ou para manter uma gravidez.

"Se um fator tão quotidiano como a alimentação influencia de forma mensurável a fertilidade, cria-se uma ‘zona’ silenciosa, mas relevante, para a saúde pública."

Especialistas veem aqui um tema que ultrapassa as decisões individuais. A indústria alimentar aposta fortemente em produtos baratos, duradouros e otimizados para o paladar. Entre marketing, disponibilidade e preço, o quotidiano é muitas vezes empurrado para o “rápido e prático”, em detrimento do “fresco e equilibrado”.

Que alavancas podem ser trabalhadas ao nível político

Autoridades de saúde e decisores políticos podem atuar de várias formas:

  • Melhor rotulagem de produtos altamente processados, por exemplo com símbolos simples ou códigos de cor fáceis de interpretar.
  • Incentivo ao consumo de alimentos frescos através de reduções de preço, por exemplo para fruta, legumes e leguminosas.
  • Campanhas de literacia e sensibilização dirigidas especificamente a mulheres e homens com desejo de ter filhos.
  • Oferta em cantinas e creches com menos recurso a refeições prontas e mais confeção a partir de ingredientes frescos.

Ainda assim, a margem de ação individual continua a ser grande: quem quer apoiar ativamente o seu projeto de parentalidade pode começar de imediato pela alimentação, sem ter de esperar por mudanças legislativas.

Aplicação prática: como pode ser um padrão alimentar mais favorável à fertilidade

Ninguém tem de se transformar, de um dia para o outro, num guru dos cereais integrais. Pequenas alterações no dia a dia já conseguem reduzir bastante a quota de alimentos ultra-processados. Ajuda ter uma orientação geral:

Uso frequente Alternativa possível
Pizza congelada Massa de pizza fresca com tomate, legumes e queijo do frigorífico
Cereais de pequeno-almoço açucarados Flocos de aveia com frutos secos, fruta e iogurte natural
Refrigerantes e bebidas energéticas Água, chá sem açúcar, bebidas com pouco sumo (tipo “spritzer”)
Molho instantâneo de pacote Molho de tomate caseiro com cebola, especiarias e azeite
Snacks embalados (batatas fritas, “flips”, bolachas) Frutos secos, fruta, palitos de legumes com húmus

Para quem planeia ter filhos, pode ainda ser útil dar prioridade a:

  • Muitos legumes e fruta fresca, de várias cores
  • Gorduras de qualidade provenientes de frutos secos, sementes, azeite e peixe gordo
  • Proteína suficiente, por exemplo de leguminosas, ovos, laticínios e consumo moderado de carne
  • Produtos integrais em vez de farinhas muito refinadas

Perspetiva de longo prazo: a fertilidade não começa apenas quando surge o desejo de ter filhos

Um aspeto interessante destes novos dados é que o impacto da alimentação provavelmente começa bem antes do que muitas pessoas imaginam. A qualidade dos ovócitos não se define apenas no mês em que se tenta engravidar; desenvolve-se ao longo de anos.

Quem, já na casa dos 20, consome maioritariamente alimentos altamente processados pode estar a piorar a sua condição de base sem se aperceber - mesmo que a vontade de ter um filho só se torne concreta mais tarde. Para os homens, a lógica é semelhante: também os espermatozoides respondem a fatores de estilo de vida como alimentação, peso, álcool ou tabaco.

Isto muda a forma de encarar a fertilidade: não é apenas um tema médico associado a clínicas de reprodução, mas um reflexo do quotidiano ao longo de muitos anos. Alimentação, atividade física, sono e stress funcionam como ajustes lentos que se podem potenciar ou contrariar entre si.

Quem já hoje pensa na sua futura vida familiar pode ganhar em vários níveis ao reduzir a dependência de refeições prontas: menor risco de excesso de peso e de doenças cardiovasculares - e, possivelmente, melhores probabilidades quando a vontade de ter um filho se tornar concreta.

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