Mas, do ponto de vista fisiológico, o que está realmente por trás disto - e onde é que começa o mito?
Muitos praticantes recreativos de desporto põem o despertador mais cedo, calçam as sapatilhas sem tomar pequeno-almoço e acreditam que cada minuto extra vai “derreter” gordura. À primeira vista, o raciocínio parece impecável: sem comida no estômago, o corpo teria de ir directamente às reservas de gordura. No entanto, a evidência científica e a fisiologia do exercício mostram um cenário bem mais matizado.
Porque é que o corpo de manhã parece usar mais gordura
Depois de uma noite sem ingestão alimentar, as reservas de hidratos de carbono ficam parcialmente mais baixas. A glicemia tende a estar reduzida, o fígado já libertou parte do açúcar armazenado (glicogénio) e, nos músculos, os stocks também diminuem. Em paralelo, a insulina encontra-se em níveis baixos - e a insulina é muitas vezes descrita como uma “hormona de armazenamento”.
Neste contexto, é verdade que o organismo recorre com maior facilidade às gorduras como fonte de energia. Em medições laboratoriais observa-se:
- Em esforço feito em jejum, aumenta a proporção de gorduras na produção de energia.
- Depois de uma pequena refeição, o corpo tende a usar mais hidratos de carbono e um pouco menos gordura.
"Usar mais gordura como combustível durante a sessão não significa automaticamente menos gordura na balança."
É aqui que está o ponto crítico: é comum confundir a utilização aguda de gordura durante o treino com uma redução sustentada de gordura corporal. Fisiologicamente, são coisas diferentes.
Oxidação de gorduras não é sinónimo automático de perda de gordura
O organismo procura manter o equilíbrio interno ao longo de todo o dia. Se, numa sessão, “puxa” mais por gorduras, é frequente compensar mais tarde com maior utilização de hidratos de carbono - ou com aumento do apetite.
O que decide o resultado é a balança energética ao longo do dia, ou mesmo da semana. Quem de manhã queima muita gordura a correr, mas depois se “recompensa” com vários pães, sumo e snacks, pode neutralizar rapidamente qualquer vantagem - ou até ultrapassá-la.
Dito de forma simples: o corpo não está a olhar apenas para 30 a 60 minutos de treino, mas para o saldo energético de 24 horas.
"As leis da termodinâmica não se deixam contornar: para perder gordura é preciso um défice calórico."
Menos potência, menos calorias: a desvantagem de treinar de estômago vazio
Para muita gente, treinar em jejum parece conduzir com o depósito quase vazio: o motor funciona, mas acelerar a fundo é difícil. E isso tem consequências directas:
- A intensidade baixa: o ritmo na corrida abranda, as cargas no ginásio ficam mais leves.
- A duração encurta: o cansaço aparece mais cedo, e o treino acaba por ser interrompido ou “aligeirado”.
- A motivação sofre: sentir-se constantemente sem energia torna mais fácil desistir.
Um exemplo numérico ajuda a perceber:
- Corrida em jejum: 300 kcal de gasto total, 60 % vindas de gordura = 180 kcal de gordura.
- Corrida após pequena refeição: 500 kcal de gasto total, 40 % vindas de gordura = 200 kcal de gordura.
Mesmo que a percentagem de gordura seja maior em jejum, a quantidade absoluta de gordura usada pode ser superior quando se consegue correr mais forte com um snack - e, além disso, o gasto calórico total é claramente maior.
O efeito boomerang: mais fome e “comida de recompensa”
Quem se obriga a fazer exercício logo cedo com o estômago a dar sinais costuma reconhecer um padrão: a fome, depois, dispara. O corpo tenta recuperar a energia que sente ter “perdido”.
Somam-se ainda factores psicológicos: a sensação de dever cumprido, o “mereci isto”, e a tendência para porções maiores ou alimentos doces. Não é raro acabar por se ingerir mais calorias do que as que foram gastas no treino.
"O verdadeiro problema raramente é o treino, mas sim o que se come a seguir."
Para perder peso de forma eficaz, no fim de contas conta se a ingestão energética diária fica abaixo do gasto. O momento em que as calorias entram tem menos importância do que muitos supõem.
Afterburn-Efeito: porque a intensidade muitas vezes vale mais do que o jejum
Após uma sessão exigente, o metabolismo mantém-se durante algum tempo acima do habitual. Este chamado “afterburn-efeito” faz com que, nas horas seguintes ao treino, o corpo continue a gastar ligeiramente mais calorias.
Os estudos apontam que este efeito tende a ser mais marcado quando o treino é intenso - por exemplo, com intervalos, trabalho de força ou esforços prolongados. Precisamente este tipo de estímulo é, muitas vezes, mais difícil de sustentar em jejum, porque faltam reservas energéticas.
Quem ingere antes do treino uma pequena porção de hidratos de carbono de digestão fácil costuma conseguir treinar com mais qualidade e por mais tempo. Com isso, aumentam tanto o consumo energético durante a sessão como o efeito pós-queima.
Hormonas do stress, fadiga, perda muscular: o lado menos falado de treinar sem pequeno-almoço
Treinar em jejum é, para o organismo, um factor de stress. Uma resposta típica é a maior libertação de cortisol. Esta hormona ajuda a disponibilizar energia no curto prazo, mas, em concentrações elevadas e de forma prolongada, é associada a mais gordura abdominal e retenção de líquidos.
O risco torna-se mais relevante para quem não quer apenas perder peso, mas também melhorar a composição corporal. Quando se treina durante muito tempo sem energia suficiente, em esforços mais intensos o corpo pode começar a recorrer a proteína muscular para produzir açúcar. A longo prazo, isso implica perda de massa muscular.
"Menos massa muscular significa um metabolismo mais lento - e dificulta a perda de gordura a longo prazo."
Os músculos consomem energia mesmo em repouso. Ao perdê-los, desce o metabolismo basal. Isso faz com que a mesma quantidade de calorias passe mais depressa a ser “demais” do que antes - exactamente o oposto do que procura quem quer emagrecer.
A verdadeira alavanca: balanço total em vez da hora do dia
Quer alguém corra de manhã em jejum, vá ao ginásio a meio do dia depois do trabalho, ou dê uma caminhada à noite após o jantar, o factor determinante mantém-se: o balanço entre calorias ingeridas e calorias gastas.
O exercício de estômago vazio pode ajudar de forma indirecta quando faz com que a pessoa coma menos no total, por exemplo no âmbito do jejum intermitente. Nesse caso, o défice calórico surge mais pela janela alimentar mais curta do que pelo treino em si.
Em contrapartida, se após o treino em jejum se comer sistematicamente mais, o resultado não só se anula como pode virar-se contra o objectivo.
Para quem o treino em jejum faz sentido - e quando é melhor evitar
Apesar das limitações, não é obrigatório demonizar o treino em jejum. Há quem o tolere bem e até se sinta mais desperto, leve e focado. Perfis típicos:
- Atletas de resistência com experiência, a fazer sessões fáceis.
- Pessoas com manhãs muito apertadas, que de outro modo não fariam exercício.
- Quem treina mal com o estômago cheio.
Sinais de alerta que sugerem repensar a estratégia:
- tonturas, tremores, suor frio
- fadiga intensa logo no início da sessão
- dores de cabeça ou náuseas
- queda clara de desempenho ao longo de várias semanas
Nestas situações, costuma valer a pena comer pelo menos algo pequeno antes de treinar - por exemplo, uma banana, um pouco de flocos de aveia ou um iogurte pequeno. Muitas vezes, isso basta para melhorar bastante o rendimento sem “pesar” no estômago.
Exemplos práticos de uma estratégia sensata
Pequeno-almoço leve em vez de travar o treino
Quem quer correr de manhã pode ganhar muito com uma mini-refeição. Por exemplo:
- 1 banana
- ou 1 fatia de torrada com mel
- ou 1 iogurte natural pequeno
Depois, esperar 15–20 minutos e começar. Assim, há energia suficiente para um treino consistente sem desconforto gástrico. No final, um pequeno-almoço normal, sem exageros - o que ajuda a manter o balanço energético sob controlo.
Força através da massa muscular: porque o treino de força é tão valioso
Para quem pretende reduzir gordura de forma direccionada, o treino de força regular é especialmente útil. Cada célula muscular extra aumenta o gasto energético, e isso acontece 24 horas por dia. Por isso, um plano inteligente combina:
- Treino de força 2–3 vezes por semana (de preferência não totalmente em jejum).
- Sessões leves de endurance, que podem ser feitas em jejum se forem bem toleradas.
- Um défice calórico moderado, suportado por uma alimentação ajustada de forma sensata.
Termos importantes, explicados de forma simples
Glicogénio: forma de armazenamento de hidratos de carbono no fígado e nos músculos. Funciona como fonte de energia rapidamente disponível durante o esforço.
Lipólise: processo em que as gorduras são libertadas das reservas e utilizadas como energia.
Afterburn-efeito (EPOC): aumento do consumo de oxigénio e de energia após um treino intenso, que pode durar várias horas.
Ao dominar estas bases, é mais fácil planear o treino com realismo e não cair em supostos “truques”. O treino em jejum não é um milagre; é uma ferramenta que, em alguns contextos, pode fazer sentido - e, noutros, pode limitar o progresso.
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