Cientistas observaram que os chimpanzés escolhem de forma consistente cristais em vez de rochas comuns, preferindo-os e examinando-os de perto quando ambos estão ao alcance.
Essa atracção lembra um comportamento já descrito em antepassados humanos, que recolhiam pedras semelhantes muito antes de existir qualquer utilidade prática conhecida para elas.
Num conjunto de pedestais iguais, perto de Madrid, foi colocado um cristal transparente com cerca de 36 cm de altura ao lado de uma rocha vulgar de dimensões semelhantes.
Ao acompanhar a interacção dos animais, o professor Juan Manuel García-Ruiz, do Centro Internacional de Física de Donostia (DIPC), registou que os chimpanzés concentravam a atenção no cristal e desistiam rapidamente da rocha.
Depois da primeira observação, a manipulação prolongou-se: vários indivíduos levantaram o cristal, rodaram-no entre as mãos e chegaram a transportá-lo para a zona onde dormiam.
A preferência parecia nascer de características do próprio cristal, o que levantou a questão de quais atributos, em concreto, captavam o interesse dos animais.
Horas de inspecção cuidadosa
Para os investigadores, o manuseamento foi tão relevante quanto a escolha inicial, com longos períodos de olhar fixo e mudanças de pega.
Ao segurar um cristal à altura dos olhos, a luz atravessava-o, tornando mais fáceis de observar as linhas internas e as faces bem definidas.
“Os chimpanzés começaram a estudar a transparência dos cristais com extrema curiosidade, segurando-os à altura dos olhos e olhando através deles”, afirmou García-Ruiz.
Essas horas de exame calmo tornaram o cristal mais do que um simples objecto de brincadeira e estabeleceram um padrão que valia a pena testar de novo.
Chimpanzés separam cristais rapidamente
Numa fase posterior, cristais mais pequenos foram colocados no recinto misturados com seixos arredondados, de aspecto baço e banal.
Em poucos segundos, os chimpanzés retiraram peças de cristal de um monte de 20, mesmo quando apareciam em simultâneo várias formas cristalinas.
Uma chimpanzé chamada Sandy levou seixos e cristais na boca até uma plataforma de madeira, onde os separou.
“Ela separou os três tipos de cristal, que entre si diferiam em transparência, simetria e brilho, de todos os seixos”, disse García-Ruiz.
A rapidez dessa triagem sugeriu que existia uma regra na cabeça da chimpanzé, e não apenas um gesto aleatório em direcção a objectos mais brilhantes.
Ligações ao comportamento humano
Ao longo das duas experiências, a equipa do DIPC concluiu, ao seguir as escolhas ao longo do tempo, que a transparência e a forma orientavam a atenção dos chimpanzés.
Quando um cristal deixa a luz atravessá-lo, surgem contornos nítidos e reflexos, sinais que parecem incentivar a observação lenta e a rotação do objecto nas mãos.
Faces planas e linhas direitas também sobressaem em florestas e savanas, onde a maioria dos elementos naturais tende a ser curva ou ramificada.
Interpretada como uma resposta a superfícies e à transparência, a preferência dos chimpanzés aproxima-se de um padrão humano antigo, sem sugerir que as motivações sejam as mesmas.
Porque é que os cristais se destacam
Ao contrário de muitas pedras, um cristal pode formar-se com faces repetidas, apresentando uma geometria organizada que raramente se vê em rochas comuns.
Os cientistas descrevem esta configuração como poliédrica, ou seja, com muitas faces planas e arestas vivas que surgem naturalmente, sem intervenção humana.
Nas paisagens frequentadas pelos primeiros humanos, árvores, nuvens e corpos de animais ofereciam sobretudo curvas e ramificações, pelo que ângulos bem definidos pareceriam invulgares.
Se os cristais treinavam a atenção para padrões rectilíneos, podem ter influenciado a forma como as mentes aprendiam a ordenar e a comparar formas.
Primeiros humanos e cristais
Muito antes de existirem jóias, as pessoas já levavam cristais para casa, deixando-os em abrigos juntamente com ossos, cinzas e ferramentas.
Os arqueólogos descrevem esses coleccionadores como hominíneos, os nossos parentes humanos mais próximos dentro da família dos símios, em locais que abrangem 780 000 anos.
Um artigo publicado em 2021 descreveu cristais num abrigo rochoso no Kalahari, na África do Sul, datados de há 105 000 anos.
Como a fonte conhecida mais próxima ficava longe do abrigo, os cristais parecem ter sido objectos escolhidos e transportados, e não simples detritos acumulados na gruta.
Não havia marcas de raspagem nem furos de perfuração que justificassem a conservação dos cristais, pelo que um trabalho prático não parece ter motivado o esforço.
Chimpanzés influenciados por humanos
Chimpanzés criados por humanos podem ser enculturados, isto é, moldados pelo contacto quotidiano com pessoas e objectos de maneiras que não ocorrem em símios selvagens.
Nove adultos, divididos em dois grupos, transportaram o cristal, levaram pedras mais pequenas à boca e continuaram a voltar ao objecto mesmo depois de a novidade perder força.
“Alguns podem achar a transparência dos cristais fascinante, enquanto outros se interessam pelo cheiro e por saber se são comestíveis”, observou García-Ruiz.
Testes em ambiente selvagem serão importantes, porque na vida natural as mesmas pistas dos cristais podem competir com comida, rivais e predadores.
Chimpanzés selvagens e cristais
Trabalhos futuros no DIPC poderão acompanhar quais os indivíduos que guardam cristais, os partilham ou os abandonam, em vez de tratar o grupo como se fosse uma única mente.
Testar bonobos e gorilas pode mostrar se o interesse por cristais é comum aos grandes símios ou se permanece específico da vida dos chimpanzés.
A comparação entre grupos selvagens e de santuário também ajudaria a separar uma curiosidade aprendida de uma tendência mais profunda para arestas direitas.
Observados em chimpanzés e em sítios arqueológicos, os cristais parecem ser objectos que chamam a atenção mesmo quando não servem para nada.
Provas mais sólidas em símios selvagens poderão esclarecer se esse fascínio reflecte instintos partilhados ou um hábito treinado por contacto humano.
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