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Plantas absorvem nutrientes do pó atmosférico através das folhas, revela um estudo

Planta com raízes expostas a crescer em solo seco e rachado sob luz natural suave.

As plantas conseguem captar nutrientes directamente do pó atmosférico através das folhas - e não apenas pelas raízes - de acordo com um novo estudo.

A investigação mostra que um episódio pontual de poeiras pode funcionar como uma fonte imediata de alimentação e obriga a repensar a nutrição vegetal em paisagens secas e pobres em nutrientes.

O pó fornece micronutrientes

Num matagal mediterrânico, a poeira depositada nas superfícies foliares fez com que os arbustos tratados passassem a apresentar muito mais ferro e outros micronutrientes do que arbustos próximos que não receberam esse aporte.

A trabalhar nas Colinas da Judeia, em Israel, Anton Lokshin, da Universidade Ben-Gurion do Neguev, associou esse enriquecimento à libertação de minerais e à sua absorção directamente nas folhas.

O aumento manteve-se sobretudo na parte aérea, enquanto as raízes quase não mudaram - um indício forte de que o pó entrou pela folhagem e não através do solo.

Essa distinção é crucial, porque deixa no ar uma questão imediata: se os nutrientes passaram mesmo para tecido vivo ou se ficaram apenas agarrados à superfície.

Impressões digitais químicas do pó

Para distinguir absorção real de simples resíduo, a equipa recorreu a elementos de terras raras, metais vestigiais que preservam padrões químicos característicos da sua origem.

Nos exemplares tratados, esses padrões afastaram-se do perfil do solo local e aproximaram-se da assinatura química do pó aplicado.

A própria “impressão digital” do pó surgiu nas folhas; já nas plantas que receberam poeira apenas junto às raízes, a mudança foi pequena.

Este rasto químico tornou pouco provável a explicação de contaminação superficial e reforçou a hipótese de os nutrientes atravessarem a barreira da folha.

O que transformou uma película de pó em alimento foi a química da superfície foliar, e não apenas a presença das partículas. Os três arbustos mantiveram folhas ligeiramente ácidas e libertaram ácidos orgânicos - moléculas pequenas que ajudam a dissolver minerais difíceis.

Numa simulação em laboratório, esse filme fino de humidade libertou ferro, manganês, zinco, magnésio, níquel e cobre muito mais depressa do que a água sozinha.

Como o solo em redor era alcalino, muitos desses mesmos nutrientes permaneceram mais difíceis de mobilizar no subsolo.

As raízes ficaram para trás

Quando o pó foi colocado perto das raízes, o efeito foi bastante menor, mesmo com o mesmo material depositado junto das plantas.

No solo, as partículas acabam diluídas, os nutrientes prendem-se a minerais e ainda ficam expostos a micróbios antes de um arbusto conseguir absorver quantidades relevantes.

As folhas evitaram esse estrangulamento porque cada grão contactou primeiro com o tecido vegetal e se dissolveu num filme ácido muito fino.

Este contraste ajuda a perceber porque é que uma tempestade de poeiras pode ter impacto num único dia, e não apenas ao longo de longos períodos de formação do solo.

Onde os minerais transportados pelo ar pesam mais

Ao extrapolar para além do local de campo, os resultados apontaram para regiões onde os minerais transportados pelo ar podem tornar-se uma componente importante da nutrição das plantas.

A equipa estimou que o ferro proveniente do pó pode chegar a 17 percent do fornecimento derivado do solo no oeste dos Estados Unidos.

Na Amazónia oriental, o pó do Saara já atravessa o Atlântico, e a absorção foliar atingiu até 12 percent do fornecimento de fósforo derivado do solo.

Estes pontos críticos surgiram onde cargas elevadas de poeira se combinam com solos que retêm com especial força nutrientes já escassos.

Mais dias com poeiras

As médias anuais também ocultam as variações mais abruptas, porque a poeira tende a chegar em pulsos curtos, não como um fluxo constante.

Nos dias de poeiras mediterrânicas, os autores concluíram que as entradas diárias de ferro e fósforo através das folhas podem igualar ou ultrapassar o fornecimento do solo.

O cobre subiu para cerca de metade das entradas diárias vindas do solo, enquanto o manganês aumentou numa fracção menor, mas ainda perceptível.

“Isso sugere uma mudança da visão tradicional, centrada no solo, da aquisição de nutrientes para uma via mediada pela vegetação”, afirmou Lokshin.

Limitações no crescimento das plantas

Apesar do aumento de nutrientes, isso não se traduziu rapidamente em plantas maiores durante a época de campo de três meses.

Os tamanhos iniciais não eram iguais, o tempo atmosférico variou, e o fósforo pode deslocar-se rapidamente dentro dos tecidos em vez de se acumular onde entra.

Além disso, cargas elevadas de poeira podem reduzir a fotossíntese ao sombrear as folhas ou ao bloquear parcialmente os estomas, poros minúsculos responsáveis pela troca de gases.

Os resultados confirmam que a via existe, mesmo que, nesta experiência, não tenha produzido um crescimento forte a curto prazo.

Poeiras em locais pobres em nutrientes

O fósforo é particularmente determinante onde os ecossistemas já funcionam com poucos recursos, e algumas áreas da Amazónia são um exemplo evidente.

Ali, solos tropicais antigos podem ser tão pobres em fósforo que a produtividade da floresta fica directamente limitada.

Essa carência ajuda a explicar por que motivo até um suplemento aéreo modesto pode fazer diferença quando as folhas o conseguem interceptar.

Em regiões pobres em nutrientes, a copa passa a integrar o fornecimento de nutrientes, em vez de depender apenas do solo.

Direcções para investigação futura

À escala global, o pó já transporta todos os anos enormes quantidades de material mineral através de terra e mar.

Se o aquecimento futuro, a degradação dos solos ou a expansão dos desertos alterarem esses fluxos, as folhas podem ganhar - ou perder - uma fonte de nutrientes que tem sido subestimada.

Os modelos actuais de vegetação, em geral, encaminham os nutrientes atmosféricos directamente para o solo, ignorando a via pela copa que esta equipa identificou.

Incorporar esse trajecto pode melhorar previsões sobre crescimento das plantas, stress nutricional e armazenamento de carbono em regiões com elevada carga de poeiras.

Deste trabalho, as folhas surgem como superfícies activas que capturam poeira, a dissolvem e transferem parte desse material para a nutrição da planta.

O próximo passo é perceber que espécies, climas e episódios de poeiras tornam esta via oculta mais forte - ou a tornam dispendiosa.

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