Os bairros urbanos de baixo rendimento tendem a ter mais mosquitos do que as zonas mais ricas, o que deixa quem lá vive mais exposto a doenças transmitidas por mosquitos.
Uma nova investigação aponta para um motivo muitas vezes ignorado: árvores invasoras - presentes com muito maior frequência em áreas de baixos rendimentos - estão a aumentar activamente as populações de mosquitos em Baltimore e em Washington, D.C.
O estudo foi conduzido por uma equipa que inclui cientistas do Instituto Cary de Estudos de Ecossistemas.
"As folhas que se decompõem em recipientes que retêm água fornecem os recursos de que as larvas de mosquito se alimentam", afirmou a autora principal Sarah Rothman, antiga investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Maryland.
"As folhas de árvores do coberto arbóreo – mais comuns em bairros de baixo rendimento – ajudaram a aumentar o crescimento dos mosquitos de formas mensuráveis e significativas."
As árvores invasoras dão vantagem aos mosquitos
Os cientistas verificaram que os mosquitos criados com folhas de árvores não nativas tinham maior probabilidade de sobreviver até à idade adulta. Além disso, atingiram a fase adulta mais depressa do que os mosquitos criados com folhas de árvores típicas de bairros mais abastados.
Em uma das duas espécies de mosquito analisadas, estas condições também resultaram em asas maiores na fase adulta.
O comprimento das asas é um indicador fiável do tamanho corporal nos mosquitos. Indivíduos com maior tamanho tendem a ser mais eficazes a transmitir doenças, o que dá a este resultado uma relevância real para a saúde pública.
Os dados sugerem uma solução verdadeiramente prática. Cidades e residentes poderão reduzir infestações ao plantar espécies nativas em vez de variedades não nativas.
Actualmente, essas espécies não nativas dominam muitos bairros de baixo rendimento.
Parte de um projecto mais amplo
Esta investigação desenvolve trabalho que a ecóloga de doenças do Instituto Cary e coautora Shannon LaDeau iniciou em 2011, em Baltimore, no âmbito do Estudo do Ecossistema de Baltimore.
Ao longo dos anos, LaDeau e os seus colaboradores têm explorado como os contextos sociais e ecológicos moldam a experiência das pessoas com mosquitos invasores nas cidades.
O trabalho da equipa segue as ligações entre condições socioeconómicas, vegetação e comportamento dos mosquitos.
As larvas alimentam-se de bactérias que crescem sobre matéria vegetal em decomposição - o que, em meio urbano, muitas vezes significa folhas acumuladas que acabam em recipientes com água, como pneus abandonados ou caixotes do lixo.
O local onde vive pode fazer diferença
Há alguns anos, LaDeau e os colegas observaram algo intrigante em Baltimore. As zonas mais ricas tinham copas de árvores mais abundantes e diversificadas, mas os bairros de menor rendimento apresentavam, no total, mais mosquitos.
Nessas áreas, também era mais comum a espécie de maior porte, que é um vector de doença mais eficiente.
"Queríamos perceber se as diferenças no coberto arbóreo poderiam ajudar a explicar por que encontrámos mosquitos mais abundantes e maiores em alguns bairros", disse LaDeau.
"Os nossos estudos anteriores demonstraram que é mais provável encontrar plantas não nativas em bairros com menor valor habitacional e mais lotes abandonados."
"Estas espécies de crescimento rápido tendem a dominar quando o terreno fica vago, ao passo que os bairros mais ricos têm recursos para estabelecer e manter árvores nativas de crescimento mais lento."
"Décadas de desinvestimento municipal e estadual em bairros de baixo rendimento têm um papel importante nesta disparidade."
Testar em que condições os mosquitos prosperam
Para avaliar de que forma diferentes espécies arbóreas afectam o crescimento e a sobrevivência dos mosquitos, os investigadores prepararam misturas com folhas das árvores mais comuns.
As folhas foram recolhidas em zonas de baixo e de alto rendimento em Baltimore, em Capitol Heights (Maryland) e em Washington, D.C.
Uma das misturas juntou folhas de ailanto e de paulónia, as duas espécies mais prevalentes em áreas de baixos rendimentos. Ambas são espécies introduzidas e não nativas.
Uma segunda mistura incluiu olmo-americano e bordo-vermelho, espécies nativas que dominam os bairros mais abastados.
Por fim, uma terceira combinação reuniu amoreira-branca, uma espécie não nativa, com nogueira-preta, uma espécie nativa. Estas duas aparecem tanto em zonas de baixo como de alto rendimento.
Os mosquitos prosperaram com árvores invasoras
Os investigadores deixaram as misturas de folhas de molho em água durante cinco dias. Depois, introduziram larvas de duas espécies invasoras: o mosquito tigre asiático e o mosquito doméstico comum.
Estas espécies podem transmitir doenças como dengue, Zika, febre amarela e o vírus do Nilo Ocidental.
Alguns recipientes continham apenas uma espécie de mosquito, enquanto outros continham ambas. Este desenho permitiu medir como as diferentes misturas de folhas afectavam a competição entre as duas espécies.
À medida que as larvas se alimentavam das bactérias que degradavam as folhas, a equipa acompanhou o seu desempenho em termos de sobrevivência e crescimento.
"O crescimento e a sobrevivência dos mosquitos foram significativamente aumentados quando foram criados com misturas de folhas que continham pelo menos uma espécie de árvore não nativa", afirmou LaDeau.
"Também descobrimos que a vegetação não nativa pode reduzir a competição entre as duas espécies de mosquito, permitindo que coexistam em áreas de baixo rendimento."
Porque é que algumas árvores ajudam os mosquitos
Os investigadores concluem que as plantas introduzidas são desproporcionalmente comuns em bairros de baixo rendimento. Essas plantas provavelmente ajudam a sustentar populações maiores de mosquitos, colocando os residentes em maior risco de doenças transmitidas por mosquitos.
"Os cientistas encontraram várias razões que explicam por que as infestações de mosquitos são piores em áreas de baixo rendimento, muitas vezes relacionadas com a quantidade - por exemplo, mais recipientes para reprodução ou mais ratos de que se alimentarem", disse Rothman.
"Estamos a mostrar que a qualidade também importa. Os governos municipais e os residentes podem usar esta informação ao decidir que árvores plantar ao longo das ruas ou nos quintais."
A equipa suspeita que as plantas não nativas possam aumentar as populações de mosquitos devido ao seu teor de azoto relativamente elevado.
Isso torna as folhas mais fáceis de digerir para as larvas e permite que se decomponham mais depressa. Como resultado, fornecem nutrientes aos microrganismos mais cedo do que, em geral, as folhas de plantas nativas.
Outra hipótese está ligada à história evolutiva partilhada. As plantas invasoras e as espécies de mosquitos analisadas neste estudo partilhavam originalmente habitats nativos na China.
Assim, os mosquitos podem simplesmente estar bem adaptados a prosperar na presença destas plantas específicas.
O enigma dos mosquitos ainda não está resolvido
Como próximo passo, os investigadores pretendem repetir os testes com outras espécies de árvores para verificar se os resultados se mantêm de forma mais ampla.
Um pormenor do estudo actual destacou-se como um enigma a aprofundar.
Os copos com folhas nativas e não nativas sustentaram níveis semelhantes de abundância microbiana total. No entanto, a experiência não avaliou que tipos específicos de microrganismos estavam presentes em cada tratamento.
"Em estudos futuros, queremos aprofundar as comunidades microbianas para perceber se certos tipos de microrganismos são fontes de alimento melhores ou piores para os mosquitos", afirmou a coautora Jane Lucas, ecóloga de comunidades no Instituto Cary.
Trabalhos futuros também deverão testar se os efeitos observados nesta investigação se traduzem em maior sobrevivência e aptidão dos mosquitos em condições reais de bairro.
Os investigadores sugerem ainda que as agências de controlo de mosquitos podem prever melhor onde as infestações poderão surgir ao fazer levantamentos da vegetação local.
Substituir plantas não nativas por espécies nativas poderá igualmente ajudar a proteger a saúde pública em comunidades de baixo rendimento.
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