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Nova previsão do milfólio-eurasiático no Quebeque

Mulher com equipamento de proteção recolhe amostra de plantas aquáticas junto a um lago com florestas ao fundo.

A maioria das ervas daninhas morre quando é arrancada e partida. Há, porém, uma que reage ao contrário: cada fragmento quebrado pode afastar-se à deriva, enraizar-se e transformar-se numa planta totalmente nova.

Essa capacidade ajudou uma planta aquática invasora a espalhar-se por centenas de lagos no sul do Quebeque.

Durante muito tempo, só o frio travou o avanço. Mais a norte, os lagos mantêm-se gelados por mais tempo e os verões continuam demasiado curtos para a planta se estabelecer.

Uma nova previsão indica que essa barreira natural está a perder força e aponta quais os lagos mais expostos à próxima vaga de invasão.

Uma erva daninha a ter debaixo de olho

A espécie chama-se milfólio-eurasiático, Myriophyllum spicatum. Há décadas que, de forma discreta, vem dominando lagos e rios, formando tapetes densos logo abaixo da superfície.

São esses tapetes que criam o problema: bloqueiam a luz solar, sufocam as plantas nativas e retiram oxigénio à água à medida que apodrecem. E, quando a planta é cortada, volta a crescer a partir dos fragmentos.

A equipa de investigação foi liderada por Grace Fedirchuk, bióloga na Universidade do Quebeque em Rimouski (UQAR).

O objectivo era perceber onde a planta já ocorre e onde poderá surgir a seguir. Para isso, o grupo propôs-se antecipar a sua expansão.

Aquecimento no norte

Durante anos, o frio fez o trabalho de manter esta espécie afastada. Os lagos do norte congelavam de forma intensa e permaneciam frios até ao verão, raramente aquecendo o suficiente para que a erva daninha se fixasse.

As alterações climáticas estão a aliviar esse controlo. À medida que as temperaturas médias sobem, lagos que antes continuavam frios até bem dentro do verão começam a aquecer mais cedo e ficam quentes durante mais tempo. Este padrão não é exclusivo do Quebeque.

Noutras regiões, também se prevê que plantas aquáticas que preferem águas quentes avancem em direcção aos pólos à medida que o clima aquece, ocupando áreas que passam a ser mais favoráveis - como descreveu um artigo sobre uma erva daninha flutuante.

Como foi construída a previsão

Para estimar a propagação, a equipa alimentou um modelo com milhares de registos de locais onde a planta apareceu e onde não foi detectada.

Cada registo incluía duas dezenas de indicadores locais, desde temperatura e precipitação até ao tamanho do lago e à população nas proximidades.

O modelo aprende quais as condições que favorecem a invasão e, a partir daí, calcula a probabilidade de invasão noutros lagos. Os investigadores aplicaram-no a cerca de 12.000 áreas de bacia hidrográfica em todo o Quebeque.

Foram simulados seis cenários, cada um combinando projecções distintas de aquecimento e de população até 2100.

Uma previsão deste tipo depende muito da qualidade dos dados. Um estudo anterior sobre a mesma espécie concluiu que a temperatura da água e o acesso humano estavam entre os sinais mais claros de onde ela surgiria.

Os dados locais levam vantagem

Aqui, o estudo revelou algo inesperado. O modelo foi executado de três formas: com dados do Quebeque, com dados do conjunto da América do Norte e com dados da área nativa europeia da planta.

Depois compararam qual das versões tinha melhor desempenho - e a opção baseada no contexto local foi a vencedora, e com grande margem.

O modelo construído apenas com registos do Quebeque previu com muito mais precisão do que as versões continental ou europeia, mesmo estas contando com bases de dados muito maiores. O resultado deixa uma lição clara.

Uma espécie a expandir-se para território novo não tem, necessariamente, o mesmo comportamento que apresenta em regiões onde já está estabelecida há décadas. Foi a “margem” da expansão que teve de ensinar o modelo.

Uma força motriz

Quando a equipa analisou que condições pesavam mais, uma resposta destacou-se das restantes.

Os sinais mais fortes foram o quão quente um lago fica e durante quanto tempo se mantém quente, seguidos pela precipitação e pela retenção de água.

Houve ainda um factor humano com relevância: quantas pessoas vivem à volta de um lago. Margens mais povoadas significam mais cais, mais pontos de acesso e mais tráfego de embarcações.

É precisamente assim que a planta “apanha boleia” entre lagos. Basta um caule partido.

Os fragmentos prendem-se a hélices e atrelados, sobrevivem ao transporte por terra e enraízam num novo lago. Isto já tinha sido observado num modelo anterior fortemente associado ao movimento de navegadores e ao acesso por estrada.

A cartografia da propagação

Nos cenários mais quentes, a área onde a planta pode estabelecer-se aumenta quase cinco vezes - uma expansão abrangente por águas do Quebeque que hoje ainda lhe estão vedadas.

Os maiores aumentos concentram-se em duas zonas. O oeste do Quebeque surge como recém-vulnerável, tal como um longo corredor ao longo do rio São Lourenço.

Esses focos não aparecem por acaso. São locais onde o aumento do calor se cruza com actividade humana intensa.

Foram exactamente estes os dois factores que o modelo identificou como os mais prováveis para tornar um lago vulnerável à invasão.

Próximos passos concretos

Até este estudo, não existia uma visão à escala provincial sobre para onde o milfólio-eurasiático se deslocaria à medida que o clima aquecesse.

Agora, essa visão existe - e assenta na constatação de que, para prever uma planta em movimento, os registos locais superam os dados mais abrangentes.

Isto altera o que os gestores podem fazer. Em vez de perseguirem a espécie depois de ela chegar, podem acompanhar a previsão e tentar travá-la antes de se enraizar.

A prevenção sempre foi a forma mais barata de combater um invasor aquático, e um mapa mais preciso torna isso viável.

O frio que durante muito tempo protegeu os lagos do norte do Quebeque está a perder-se, e a província passa a saber onde a planta tem maior probabilidade de se espalhar a seguir.

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