A autonomia dos elétricos tende a encolher em autoestrada, mas o motivo é menos misterioso do que parece - e começa, literalmente, na física.
É comum ver veículos elétricos a prometerem mais de 600 km de autonomia. Em teoria, soa excelente. No uso real, sobretudo a velocidades de autoestrada, os valores raramente batem certo.
Uma das perguntas mais recorrentes de quem pondera comprar um elétrico é simples: porque é que o consumo sobe tanto quando aumentamos a velocidade? A explicação está nas leis da física. E o novo Nissan Leaf é um bom exemplo para a ilustrar com números claros.
A velocidade é inimiga da autonomia
Guarde este ponto: a partir dos 60 km/h, a resistência aerodinâmica passa a pesar mais nos consumos do que a resistência do rolamento dos pneus no asfalto.
Dito de outra forma, em ambiente urbano a eficiência depende bastante da massa do carro, da forma como se acelera e trava e do atrito de rolamento. Já em autoestrada, o “inimigo” principal passa a ser o ar.
E aqui não há atalhos. À medida que a velocidade aumenta, a resistência aerodinâmica não cresce de forma linear; aumenta com o quadrado da velocidade.
Na prática, isto quer dizer que duplicar a velocidade não duplica a resistência: multiplica-a por quatro. Um exemplo ajuda a fixar a ideia: passar de 50 km/h para 100 km/h faz a resistência ao avanço aumentar quatro vezes.
É exatamente por isso que qualquer automóvel - elétrico ou a combustão - gasta mais combustível ou energia quando circula depressa em autoestrada.
O que muda nos elétricos?
Nos elétricos, o efeito é simplesmente mais visível. Um depósito de combustível consegue guardar o equivalente a centenas de kWh (quilowatts-hora) de energia sob a forma de gasolina ou gasóleo, enquanto as baterias continuam a oferecer uma densidade energética bastante inferior. Resultado: um aumento de consumo traduz-se de imediato numa quebra mais notória da autonomia.
Foi também por esta razão que a Nissan optou por comunicar consumos diferentes conforme o cenário de utilização no novo Nissan Leaf.
Para lá da autonomia combinada em ciclo WLTP, a marca divulga ainda valores de referência para condução a velocidade constante.
De acordo com a Nissan, o Leaf com bateria de 75 kWh pode chegar aos 622 km em ciclo combinado WLTP. Contudo, a 110 km/h constantes, a autonomia indicada fica nos cerca de 430 km. Se o andamento subir para 130 km/h, o valor baixa para aproximadamente 330 km.
Esta abordagem mais transparente responde a uma das dúvidas mais comuns de quem quer perceber, com realismo, o que esperar de um veículo elétrico.
A aerodinâmica faz toda a diferença
Se o ar é o principal adversário da autonomia em autoestrada, então faz sentido que reduzir a resistência aerodinâmica seja prioridade. No Nissan Leaf, esse trabalho foi levado a sério. O resultado é um coeficiente aerodinâmico (Cx) de apenas 0,25 - um número particularmente baixo para um modelo deste segmento e, ainda por cima, um crossover.
Para lá chegar, foram aplicadas várias soluções: puxadores retráteis, jantes com desenho otimizado, grelha dianteira com gestão ativa do fluxo de ar, uma traseira pensada para diminuir turbulências e um fundo quase totalmente carenado.
À primeira vista, estes pormenores podem parecer insignificantes. Mas, quando o tema é eficiência em autoestrada, são precisamente estes detalhes que podem determinar se se pára mais cedo ou se se vai mais longe.
Menos desperdício, mais quilómetros
A eficiência não depende só da aerodinâmica. O novo Nissan Leaf estreia uma unidade motriz “3 em 1” que junta motor elétrico, transmissão e inversor num conjunto mais compacto e mais leve. Com isto, é possível baixar perdas energéticas, melhorar a eficiência do sistema e ajudar a aumentar a autonomia.
Em Portugal, o Nissan Leaf é proposto com duas baterias e dois níveis de potência. A variante de entrada usa uma bateria de 52 kWh, debita 130 kW (177 cv) e anuncia até 436 km de autonomia WLTP. Os preços arrancam nos 39 907 euros.
No escalão seguinte, a partir de 43 307 euros, surge a versão com bateria de 75 kWh e 160 kW (218 cv), com capacidade para atingir até 622 km de autonomia em ciclo combinado.
Afinal, os elétricos gastam muito em autoestrada?
A resposta curta é: sim, gastam mais. Ainda assim, a realidade é que todos os carros precisam de mais energia quando andam a velocidades elevadas.
Nos elétricos, a diferença sente-se mais porque a autonomia disponível está sempre visível no ecrã e porque as baterias guardam menos energia do que um depósito de combustível.
A boa notícia é que a melhoria contínua da aerodinâmica, das baterias e dos sistemas de propulsão está a reduzir gradualmente este impacto. E exemplos como o Nissan Leaf mostram que a autonomia em autoestrada já não depende apenas do tamanho da bateria: depende, cada vez mais, da eficiência.
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