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O jardim contra o tempo, de Olivia Laing, e a previsibilidade das plantas

Mulher a cuidar de plantas em vasos junto a janela, com livro aberto e relógio ao lado no chão.

Cuidar de plantas e encontrar previsibilidade

Quando se trata de acompanhar uma planta, faz diferença compreender os seus ritmos. Em tempos de incerteza, a regularidade desses ciclos pode funcionar como um bálsamo. E a leitura de "O jardim contra o tempo", de Olivia Laing, também.

Uma flor efémera e um orgulho discreto

Há alguns dias, num vaso pequeno, a flor da planta que eu tinha semeado semanas antes começou a anunciar-se. Nas últimas 48 horas, foi-se esticando num formato alongado - como um sino fechado em espiral - quase exagerado quando comparado com o resto da planta, baixa e de folhas miúdas. Numa dessas manhãs, a glória-da-manhã fez jus ao nome: ainda antes de eu levantar a persiana, já tinha aberto, em rosa choque, simultaneamente imponente e delicada.

Eu sabia que aquele momento duraria pouco, apenas algumas horas. Guardei-o em fotografia - para o futuro e para o partilhar com amigos. Não sei explicar bem porque é que sinto uma espécie de satisfação quando as plantas de que trato florescem, ou quando se mantêm vigorosas, cheias de vida; ou ainda quando consigo levar um simples pé de salsa até ao fim do ciclo, com a oferta final das suas pequenas flores esbranquiçadas.

Talvez nem seja orgulho. Não tenho um jardim desenhado e planeado como teria alguém que se dedica a isto a sério; será, antes, alegria por conseguir criar condições para que aqueles seres vivos cresçam bem. E entristece-me, admito, quando falho e alguma planta acaba por morrer.

Jardinagem em casa durante a pandemia

Foi sobretudo nos confinamentos da pandemia que dei início a esta aprendizagem de jardinagem dentro de casa - e nem sequer tenho varanda. O método foi básico. Tinha mudado há pouco para uma casa com boa luz e fui experimentando, com mais ingenuidade do que técnica. Sempre que tirava uma semente de um fruto, enterrava-a na terra (desse período, ainda tenho um limoeiro na sala, junto à janela, que no ano passado começou a florir).

Não era apenas uma forma de me distrair. De algum modo, obrigava-me a prestar atenção aos ciclos naturais de cada espécie e, assim, a agarrar-me à ideia de que existia alguma previsibilidade - algo de que eu precisava muito naqueles dias incertos.

Jardins, controlo e "O jardim contra o tempo", de Olivia Laing

Quando falo de natureza, sei que estou a falar de uma natureza "enjaulada": transformada e ajustada aos gostos e às necessidades humanas. Nenhum jardim é verdadeiramente natural, porque a natureza - apesar do equilíbrio que a faz funcionar sem intervenção humana - parece-nos, muitas vezes, caótica e até assustadora.

A vontade humana de dominar o mundo natural foi um tema que aprofundei quando me ofereceram, já a preverem que eu me iria apaixonar, o livro "O jardim contra o tempo - Em busca de um paraíso comum", da britânica Olivia Laing, publicado em 2024 e infelizmente ainda sem edição em Portugal. A partir daí, tornou-se, sem demora, a minha autora contemporânea preferida.

Laing começa por relatar a sua ligação aos jardins e a forma como, durante a pandemia, acabou por ter finalmente um jardim próprio que pôde recuperar e reconstruir. Ainda assim, o livro não se centra nela: o foco está na história desta procura de um paraíso na Terra - e no que essa ideia significa.

A leitura da história dos jardins e parques britânicos ganha contornos sombrios, porque por trás deles se escondem o passado escravocrata, a expropriação de terras a camponeses e a exclusão de classe. Ao mesmo tempo, os jardins também podem ser abrigo para quem vive nas margens: espaços seguros e privados onde foi possível construir "paraísos" particulares e viver com liberdade. Foi o que fez, por exemplo, Derek Jarman na sua Prospect Cottage, na costa de Kent - além de realizador e activista LGBTQ+, era também um jardineiro notável. Ou, noutro registo, o movimento Artes e Ofícios, protagonizado no século XIX por William Morris, como resposta à industrialização: inspirado pelo socialismo utópico, procurava integrar a arte no quotidiano, tomando as formas da natureza como motivo estético.


Sem cair na falácia de que existiu um paraíso perdido que a humanidade tenta recuperar, acredito que o paraíso será sempre uma obra em curso - pelo menos enquanto persistir o desejo de uma humanidade a viver em harmonia.

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