Quando se fala nos animais mais letais de África, raramente se pensa, em primeiro lugar, na agricultura. No entanto, uma investigação recente da África do Sul revela algo inesperado: precisamente a víbora-de-sopro (Puffotter), uma das serpentes mais perigosas do continente, pode ter um papel surpreendentemente relevante na redução de perdas agrícolas e na luta contra a fome. E não se trata de testes em laboratório - acontece no terreno, em campos de pequenas famílias agricultoras.
A serpente mortal que protege os campos
A víbora-de-sopro (nome científico Bitis arietans) vive em savanas e zonas de capim a sul do Sara. Em média, atinge cerca de 1 metro de comprimento, tem um corpo robusto e uma camuflagem excelente. Para muitas pessoas em África, é sobretudo um perigo: segundo a Organização Mundial da Saúde, todos os anos morrem dezenas de milhares de pessoas devido às suas mordeduras.
"A víbora-de-sopro está entre as serpentes com mais vítimas mortais a nível mundial - e, ao mesmo tempo, pode ser uma ajudante silenciosa da agricultura."
Agora, uma equipa de investigação da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, vem contrariar a imagem habitual de inimigo. Os cientistas mostram que esta serpente é uma aliada central no combate a roedores prejudiciais - precisamente em locais onde a agricultura é determinante para a sobrevivência de regiões inteiras. Em muitos países africanos, entre 60 e 70% da população activa depende, directa ou indirectamente, da agricultura.
Porque é que os roedores se tornam o pior pesadelo dos agricultores
Nos campos africanos, as ameaças não se limitam a períodos de seca ou tempestades. Roedores como ratos e ratazanas conseguem destruir colheitas abundantes de forma significativa em poucas semanas. Eles alimentam-se de:
- sementes semeadas logo após a sementeira,
- rebentos jovens e raízes,
- grãos maduros e tubérculos pouco antes da colheita.
A isto soma-se um segundo problema, muitas vezes subestimado: os roedores contaminam reservas armazenadas, propagam doenças e podem também infectar animais de criação. Para pequenos agricultores com poucas ou nenhumas poupanças, perdas deste tipo podem significar, no pior cenário, que a família fique meses sem comida suficiente.
A víbora-de-sopro como caçadora de alto rendimento de roedores
É aqui que entra o estudo mais recente. Os investigadores quiseram perceber: quanta presa consegue, de facto, capturar uma víbora-de-sopro - e que impacto isso tem nas populações de roedores?
Para o analisar, recorreram a um novo conceito de medição a que chamam "capacidade alimentar factorial". Em termos simples, este método estima o quanto um animal consegue aumentar a sua ingestão quando há muitos animais-presa disponíveis - por exemplo, em anos em que os roedores se multiplicam fortemente.
"O estudo mostra: uma única víbora-de-sopro pode capturar até dez roedores numa fase de caça e aumentar a sua ingestão de presas até doze vezes."
De acordo com os cálculos da equipa, uma víbora-de-sopro é capaz de capturar muito mais presas do que precisaria apenas para satisfazer as suas necessidades energéticas. Quando as ratazanas se multiplicam de forma acentuada, a serpente intensifica drasticamente a actividade de caça. Assim, estes animais conseguem regular populações de roedores numa escala que pode ser perceptível para os agricultores.
Vantagens face a outros predadores
Naturalmente, a víbora-de-sopro não é a única caçadora de roedores em África. Também vários mamíferos predadores ajudam a manter estes animais sob controlo, por exemplo:
- chacais e raposas,
- diferentes espécies de mangustos,
- gatos selvagens e gatos domésticos assilvestrados,
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