Borrifa-se, deixa-se secar e, para a maioria dos proprietários, o assunto fica resolvido. Parte-se do princípio de que o herbicida fica no quintal - e não no corpo de alguém grávida que vive na mesma casa.
Uma equipa decidiu pôr essa ideia à prova com 752 mulheres grávidas, acompanhando, em vários momentos da gestação, a presença de um herbicida comum na urina.
Em paralelo, os investigadores avaliaram as hormonas que ajudam a manter a gravidez a decorrer normalmente. O que observaram nunca tinha sido descrito em humanos.
Um químico em todo o lado
O glifosato é o herbicida mais utilizado no mundo, aplicado em terrenos agrícolas e jardins, acabando por chegar aos alimentos e ao abastecimento de água.
Cada vez mais, os cientistas encaram-no como um potencial desregulador endócrino - isto é, uma substância capaz de interferir com as hormonas do organismo.
Quando entra no ambiente, o glifosato degrada-se num composto mais persistente chamado AMPA, que pode permanecer no solo e na água durante mais tempo.
Ambos aparecem repetidamente na urina humana, estudo após estudo, em toda a América do Norte. Foi precisamente essa disseminação que motivou a equipa por trás deste novo trabalho.
O estudo foi liderado por John Meeker, professor de ciências da saúde ambiental na Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan (U-M).
“Este é o herbicida mais extensivamente utilizado no mundo, e ainda assim existem surpreendentemente poucos estudos de investigação sobre os potenciais impactos que pode ter na saúde reprodutiva humana, na gravidez ou no desenvolvimento fetal e infantil”, afirmou Meeker.
Até aqui, a maior parte do que se sabe vem sobretudo de estudos em laboratório com animais, e não de dados em pessoas.
O que a equipa mediu
Meeker e os seus colegas recorreram a um estudo de gravidez de longa duração em Porto Rico, que há anos acompanha exposições ambientais e indicadores de saúde materna.
A análise incidiu sobre 752 mulheres grávidas a viver na região norte da ilha.
As participantes forneceram amostras de urina até três vezes ao longo da gravidez, aproximadamente às 18, 22 e 26 semanas.
Em duas dessas visitas, os investigadores recolheram também sangue para medir hormonas relevantes para a manutenção da gestação.
Na maioria das amostras, foi detectado um dos dois compostos. E não se tratava de mulheres a trabalhar em campos agrícolas.
A exposição fazia parte da vida quotidiana, e os níveis encontrados foram algo superiores aos que normalmente se observam na população geral dos EUA.
O estrogénio que desceu
O sinal mais consistente envolveu o estriol, um estrogénio que aumenta de forma constante durante a gravidez e contribui para manter o fluxo sanguíneo para a placenta à medida que o feto cresce.
As mulheres com mais glifosato e AMPA na urina tendiam a apresentar menos estriol no sangue.
A cada aumento de exposição, as medições de estriol ficaram, em média, cerca de 8 a 11 por cento mais baixas. Este padrão manteve-se em diferentes momentos da gravidez e em múltiplas análises.
Antes deste trabalho, ninguém tinha comparado o glifosato com esta hormona em mulheres grávidas.
O estudo não consegue explicar ao certo por que motivo o nível hormonal diminui. Resultados laboratoriais sugerem que o glifosato poderá bloquear uma enzima envolvida na produção de estrogénio, o que seria compatível com as medições.
Ainda assim, a equipa mediu a alteração e não o mecanismo; por isso, a causa permanece por esclarecer.
Hormonas da tiroide e do stress
O estriol não foi a única hormona a variar. O AMPA associou-se a níveis mais elevados de hormonas tiroideias e, mais tarde na gravidez, a um sinal mais forte do cérebro para a tiroide.
Durante a gestação, estas hormonas aumentam para apoiar o crescimento fetal, pelo que alterações nesse sistema podem ter efeitos em cadeia.
Já o glifosato correlacionou-se com níveis mais altos de uma hormona do stress chamada CRH no final da gravidez.
A CRH ajuda a regular o momento do parto, e um estudo separado já relacionou este químico com parto pré-termo.
Os dados, contudo, não permitem concluir se as mudanças tiveram origem na própria glândula tiroide ou nos sinais que recebe do cérebro.
O sexo fetal pode influenciar a resposta
Quando a equipa analisou os resultados separando-os pelo sexo do feto, destacou-se um padrão.
A ligação entre maior exposição e menor estriol foi mais forte e mais nítida em mulheres que estavam grávidas de raparigas do que naquelas que esperavam rapazes.
Quanto aos efeitos na tiroide, a tendência foi inversa, surgindo com maior frequência nas gravidezes de um rapaz.
Nenhum dos dois resultados atingiu o limiar de significância estatística - ambos devem ser interpretados como tendências e não como conclusões definitivas.
Ainda assim, a direcção observada encaixa num padrão mais amplo: rapazes e raparigas em desenvolvimento nem sempre respondem da mesma forma ao mesmo químico.
Esta observação reforça a importância de considerar o sexo fetal em investigação sobre desregulação endócrina.
Para onde isto pode levar
O contributo principal do estudo é acrescentar um fio biológico plausível. Trabalhos anteriores associaram o glifosato a menor crescimento fetal e, noutro artigo, a diferenças no desenvolvimento na primeira infância.
O percurso que ligaria a exposição a esses desfechos nunca ficou claro. A perturbação hormonal passa agora a ser uma hipótese concreta.
Para médicos e reguladores, a discussão pode evoluir de uma preocupação genérica para mudanças específicas e mensuráveis.
Daí nasce uma pergunta objectiva: será que o estriol mais baixo, ou alterações nas hormonas do stress, estão por detrás dos resultados de nascimento apontados em estudos anteriores?
Este trabalho não prova que o glifosato tenha causado as alterações, e as amostras de urina reflectem apenas a exposição recente.
Mesmo assim, trata-se da primeira evidência em humanos que associa estes químicos a vários sistemas hormonais em simultâneo.
Os investigadores tencionam acompanhar, a seguir, as mães e as crianças.
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